terça-feira, 15 de agosto de 2006

A vida como ela é

Assisto Páginas da Vida. Normalmente é o meu momento de descanso físico e mental, quando deito na cama para brincar e conversar com meus filhos, com a TV ligada. A novela está num ritmo um tanto lento, tem exageros, furos, etc. Mas é impossível não se chocar com o comportamento da Marta (vivida brilhantemente pela Lília Cabral), como a mãe e agora avó (dá para chamá-la assim?) fria, insensível, preconceituosa.

As palavras que ela usa desde que soube que a neta era portadora da síndrome de Down – bebê com defeito, retardada, estorvo... – são de uma estupidez e até mesmo de uma burrice que agridem. Mas o pior de tudo é que isso acontece fora dos estúdios da Globo. Isso acontece na vida da gente.

Mães rejeitam filhos doentes – física ou mentalmente. Mães abandonam até mesmo bebês saudáveis, porque os vêem como sinônimo de estorvo, como a personagem da novela das oito. Mães agridem física e moralmente seus filhos, exploram-nos no trabalho infantil, são coniventes em casos de abuso sexual que na maioria das vezes ocorre dentro de casa. E eu pergunto: que mães são essas? Pior ainda, que ser humano é esse?

Quando o primeiro pediatra (Dr. Diego, um dos melhores profissionais que nos atendeu durante todo o período de Neonatal) falou que o Caio estava com uma meningite forte e gravíssima, ele me disse que talvez ele não conseguisse sobreviver; que talvez ele sobrevivesse e ficasse completamente vegetativo; mas que ele também teria possibilidades de se desenvolver apropriadamente, e que minha postura frente a tudo isso poderia fazer toda a diferença. Eu respondi que aceitaria o que fosse, com uma única condição: queria meu filho vivo, de qualquer maneira. Pedi ao Dr. Diego que salvasse meu filho, porque do resto eu daria conta. Quem acompanha nossa história sabe que tenho meus momentos de fraqueza e cansaço. Meu guerreiro tem um desenvolvimento motor e intelectual mais lento que a maioria das crianças (exatamente como a médica Helena explicou à avó imbecil na novela), tem baixa imunidade que justifica uma série de acompanhamentos médicos (pediatra, neurologista, pneumologista, fisioterapeuta, neurocirurgião). Mas não existe um único dia em minha vida que eu não agradeça por ele estar vivo, por ele ser meu filho.

As novelas há muito deixaram de ser ficção para serem um espelho da nossa sociedade. Se existem personagens escrotos, de mau caráter, insensíveis, é porque infelizmente convivemos com pessoas assim todos os dias. Quando engravidei a primeira vez, ouvi uma crítica do tipo “que pessoa tem coragem de colocar uma criança nesse mundo tão louco?”. Acho que uma pessoa que ainda quer acreditar que o ser humano tem seu valor e que podemos sim, transformar o mundo em que vivemos num lugar melhor. Uma pessoa que sabe que a vida tem sua dureza, mas que existem páginas em branco para serem escritas. Nossa consciência e a forma de educar nossos filhos – com amor, responsabilidade e cidadania podem fazer toda a diferença nos próximos capítulos. Afinal, são eles os autores do amanhã.

12 comentários:

Márcia POA disse...

Dinha, lindo o que tu escrevestes, acho que é exatamente isso, infelizmente existem muitas pessoas preconceituosas e atrasadas. Faria muito bem para ela conviverem contigo que és uma grande guerreira.
Beijocas e um bom exame para o Caio amanhã, vou estar torcendo muito por vocês.

Bárbara (motherns) disse...

Dinha, concordo com vc! E vc tem visto os depoimentos das famílias que tem filhos com a síndrome? Um depoimento mais lindo que o outro! Pra provar e calar a boca de muita gente que o amor ainda vence e pode tudo!! Tu podia mandar tua história pra Globo, que tu acha?
beijos

Greice disse...

Dinha, nem vou mais falar que vc me deixou com os olhos cheios de água, né? vou te mandar um e mail...
beijos

Karin disse...

Ai, querida, deveriam existir mais "Dinhas" neste mundo...com certeza ele seria muito melhor!
Beijo enorme,

Karin disse...

Ai, querida, deveriam existir mais "Dinhas" neste mundo...com certeza ele seria muito melhor!
Beijo enorme,

Mariana (Mothern) disse...

Dinha, não vejo mto a novela, mas acompanho sua história e torço mto por vcs. Mas nem preciso, né? Sua coragem tem dado conta do recado perfeitamente! Um beijo

vanessa disse...

Dinha
Meu marido costuma dizer que adora ver a novela das 7 pq ri muito das loucuras, mas não consegue ver a das 8 pq fica muito triste qd aparece a marta com sua insensibilidade. Eu não costumo ver muito pq não sou muito chegada em TV, mas tenho visto alguns capitulo e me emocionado bastante tb.
Felizmente, existem pessoas como vc que são verdadeiros anjos.
bjs pra ti

Isabella disse...

Ah, Dinha, como sempre você consegue me emocionar. Você escreve com tanta sensibilidade que chego a sentir exatamente o que você sente. Um grande beijo, obrigada pelos textos. Beijo, querida!

Claudia Medeiros disse...

Infelizmente, o preconceito ainda é algo muito presente e que deve demorar para sumir de vez, mas pessoas fortes como você, com o amor que você tem, ajudam muito a mudar isso.

olivia disse...

oi amiga, assino embaixo do que vc falou, existem pessoas que realmente não deveriam ser mães
quero mais uma vez te dizer do meu carinho e admiração pela mãe e ser humano que vc é
um beijo grande

Moniquinha disse...

Dinha amada,vc sempre me comove.
Aaa se todas a smães fossem como vc.
bjos

Flávia disse...

Lindas e verdadeiras palavras.
Beijos.