terça-feira, 13 de março de 2012

Montanha Russa

Terça, quarta, quinta e sexta da semana passada eu estava nervosa, triste, preocupada.
Sábado estava cansada.
Domingo e ontem eu estava feliz e confiante.
Hoje eu estou nervosa, triste, preocupada.

Que mulher é essa de humor tão oscilante? Louca? Bipolar?
E aí eu te pergunto: que mãe seria diferente?

Meu filho nasceu e quando eu deveria estar comemorando, recebendo mimos e parabéns, os médicos foram enfáticos: ele vai morrer em poucos dias! E eu me acabei de medo e tristeza. E Caio contrariou todas as estatísticas e sobreviveu. E eu fiquei exultante de tanta felicidade! E pelos dois primeiros meses de vida, foi assim.... Ele melhorava, piorava, melhorava, piorava. Veio a meningite, a hidrocefalia, a cirurgia. Vencemos! Viemos para casa!

Aos 7 meses, a ameaça de um novo problema grave, de uma nova cirurgia. E mais uma vez eu chorei de medo. E Deus foi misericordioso e tudo não passou de um susto. E eu derramei lágrimas de gratidão e alegria.

Quando eu começo a entender melhor o universo chamado "paralisia cerebral", aos 3 anos Caio tem hepatite e vai pra UTI. Os médicos dizem: é grave, difícil salvá-lo. E eu quero morrer junto, me acabo. E mais uma vez, a internação mínima prevista para 15 dias se transforma em 8 e Caio volta são e salvo pra casa. E eu não consigo explicar o tamanho da minha felicidade!

Mas a partir deste episódio, surge outro fantasma: as convulsões. Que eu entrava em pânico a cada uma. Que eu achava que ia perder meu filho. Até entender que tá, é crônico, dá, medica, passa. E começo a ter uma certa tranquilidade. De repente, por um ano inteiro, esse fantasma fica longe. E eu que tanto acredito em Deus, acredito também no milagre da cura. Porém, ele não veio.




Ao longo destes últimos 14 meses, Caio tem tido convulsões com uma frequência espantosa. Quase uma a cada 45 dias. Se eu quero ver a metade cheia do copo, são convulsões mais "brandas" em que às vezes não é necessária a remoção nem suporte de oxigênio. Mas nem por isso doem menos no meu coração de mãe.

E em busca de respostas e, principalmente, de qualidade de vida "ao meu tudinho" como o chamo, hoje conseguimos uma nova avaliação neurológica. E fizemos um eletroencefalograma de urgência. E o resultado nos deixou apreensivos. A médica diz que o traçado cerebral do Caio está um caos. Que uma séria avaliação tem de ser feita, inclusive exames mais modernos e específicos sobre a funcionalidade da válvula. Que muito provavelmente teremos que mudar toda a terapêutica. E me diz que o ideal é interná-lo, para que ele possa fazer os exames com mais conforto e rapidez, contando com o acompanhamento dos devidos profissionais em tempo real.

Internação. Outro fantasma que tanto me assombra.
Sim, eu morri um pouco quando ela disse essa palavra. Chorei, tive medo. Ainda estou com. Revivi tudo o que já passamos. E não sei se fico com ainda mais medo ou se me encorajo de perceber que daremos conta.
Não há de ser agora... Mas tenho medo.
Quero ter fé. Mas em momentos assim ela me parece absurda.
Queria entender o por quê desta montanha russa emocional nestes 7 anos.
Sei que cresci. Mais do que amar, admiro meu filho, pela alma grandiosa que ele é. Já me disseram uma vez e nunca esqueci que o caminho que leva à Deus é "estreito e apertado". Ainda assim, às vezes eu me pergunto: precisa ser tanto?
Quero ser forte, mas não sou.
Quero ser otimista, mas nem sempre consigo.
Quero ser feliz com meu filho... e muitas vezes sou!
Só que tem horas que esta montanha russa cansa.
Como agora, por exemplo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Aprendendo e ensinando

Hoje o dia e a semana começaram especiais.
Eu e Caio fomos à primeira reunião de apresentação na sua futura escola de ensino fundamental, onde ele cursará o primeiro ano (primeira série) em 2013.

Para quem não está entendendo nada, recapitulamos rapidamente.
Ano passado, a Secretaria de Educação queria que, automaticamente, como qualquer criança, Caio este ano iniciasse o primeiro ano do Ensino Fundamental. A professora e monitora argumentaram que ele não tinha feito um ciclo completo do Jardim, na Educação Infantil e seria bem importante ele ficar mais um ano. Questões burocráticas, o direito de estar entre os seus "iguais" (segundo a SME, as crianças de 6 para 7 anos), o direito de cursar o ensino regular no seu tempo e ritmo (que eu e demais profissionais defendemos,) também assegurado por lei, fez render dois meses de discussão até o veredito final: Caio permaneceria este ano na Educação Infantil/Jardim A, mas começaria gradualmente, uma a duas vezes na semana, a frequentar sua futura escola de primeira série, onde iria para uma sala especial de recursos e se ambientaria com o espaço, professores, rotinas. Achei uma saída excelente!

Pois hoje demos o primeiro passo efetivo.
Semana que vem Caio inicia lá.

Num primeiro momento, como já estou acostumada, a pedagoga me fala da responsabilidade que será, visto que ela especificamente nunca lidou diretamente com um portador de pc. Que vai precisar da minha ajuda e talvez, de outros profissionais que já o acompanhem. Mas isso, para mim, não é barreira. A própria Secretaria de Educação me diz que Caio é o primeiro pc cadeirante a frequentar o ensino regular público em nossa cidade. Então, vamos lá, desafio aceito. Talvez enquanto precursor, a estrada nos seja mais difícil, porque vamos todos aprendendo. Nós a andar por ela. A sociedade a ver que outro caminho, além do convencional, é possível.

E assim, aprendendo e ensinando, vamos começando novas lutas em 2012. Mas confiantes de que, se a vitória não é nossa, a capacidade de lutar, essa, ninguém nos tira! ;-)

domingo, 11 de março de 2012

La Dolce Vita

E como nem só de agruras a gente vive, apresento algumas criações da semana de Dinha Doces (tem como não ser tetrapolar, internando filho e vendendo doces, tudo junto ao mesmo tempo agora?). Pensando muito em me especializar em doces finos e lembrancinhas. Que vocês acham?

Bicho-de-Pé

Branquinhos

Novidade: Brigadeiro de Nutella!


Brigadeiro de Nutella em versão "plus size" para lembrancinha

Dando forma...

Olhem que mimo!

EU amei! E vocês?

Em ação, no Chá de Fraldas do Leonardo!


sábado, 10 de março de 2012

O sufoco

Então que essa semana foi o caos.

Tudo ia bem, lindo, desfraldando... quando na terça, ao buscar o Caio na escola, a monitora me pergunta sobre um carocinho na cabeça dele. O que eu ri, achando que era só a válvula que ela não estava reconhecendo, na verdade era um nódulo bem em cima do trajeto da válvula.

Meu coração disparou, vim pra casa já fora de mim. Queria correr, chorar, ir logo com ele a um hospital. A válvula e sua possível rejeição ou entupimento sempre me foram grandes fantasmas. Até agora tudo corre dentro das melhores estatísticas, visto que Caio nunca teve problema com ela ao longo destes quase 7 anos que a usa. O complicado é conseguir atendimento de emergência com neurocirurgia. No Hospital de Clínicas, onde ele colocou a DVP e faz acompanhamento anual, me atenderam bem ao telefone mas me disseram que a realidade era que, sem febre, em boas condições, "apenas" pelo surgimento do nódulo, teríamos que aguardar até umas 48hs na espera da Emergência. Pensei em correr para o convênio, mas aí só em Porto Alegre. Com uma encomenda de doces pra entregar - e não adianta, eu jamais deixo de cumprir meus compromissos - adiei para quarta final da tarde. Que foi justamente quando o nódulo começou a desaparecer.

Quinta pela manhã ele teve uma convulsão branda e me reacendeu o nervosismo. Quando acordou, desandou com aquelas crises intermináveis de vômitos. Sexta, seguindo o mesmo quadro, fomos para o hospital e aí ele precisou de soro e medicações na veia. Como Deus é bom, estando lá, fomos atendidos por uma excelente equipe médica que concordou em fazer todo o check up que já estava previsto pela pediatra dele e que não fiz justamente porque ele começou a passar mal.

Enfim, foram descartados qualquer problema de saúde maior, inclusive infecções ou problemas na válvula. Não me perguntem como, o nódulo simplesmente sumiu. Provavelmente foi algo externo. Caio está com uma leve anemia, mas isso, infelizmente, é meio padrão, devido à alta dose de anticonvulsivos usados. Mas, o fígado, que também sempre nos preocupa, está 10! Sexta à noite ele teve alta e pudemos retomar a vidinha.

Às (muitas) vezes me acho doida de pedra, neurótica, bipolar, tetrapolar. Mas me pergunto que mãe não é um pouco? Ou que mãe não seria mesmo, no meu caso? Com tanto medo de ter que reviver a UTI, hospitalizações e todos os sentimentos apreensivos que lhes caracterizam. Que foi tão, tão assustada e desestimulada por alguns médicos que ainda teme perder o filho de uma hora para outra. Quando tudo passa, lembro que Deus sempre está conosco. Jamais desacredito disto. Por momentos, até esqueço um pouco. Mas no fundo, bem lá no fundo, eu sei, eu sinto Sua presença. Nos momentos em que a consciência fala mais alto, eu lembro de que está tudo sendo como Ele quer. E tem dado tudo certo.

Terça que vem temos avaliação sobre as crises convulsivas com uma nova neuropediatra, no Hospital da Criança Santo Antônio, em Porto Alegre. É aquela coisa, eu quero uma, duas, três opiniões e que me expliquem e desenhem tudo! E por incrível que pareça, depois desses dias de correria e angústia, tô desconfiando que podemos ter boas novas por aí, conhecer mais gente disposta realmente a tratar a criança com paralisia com outros olhos que não os do "não tem jeito" ou "é mesmo assim".

O Caio? Ótimo. Sábado ainda passou enjoado, mas ontem estava com a corda toda novamente. Com aquela carinha que me desmente quando digo que esteve no hospital. Mas isso é coisa dele, guerreiro como sempre. E eu, parece que ainda não me acostumei com isso. De resto, tudo nos seus devidos lugares. A cada episódio desses, eu questiono minha sanidade mental. Mas, ao menos, o coração da mamãe aqui segue firme e forte, resistindo aos testes que seu Caíto me lança.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O desafio do desfralde

Então que esse post já está sendo gestado há quase dois meses.
E neste período, as coisas já foram acontecendo.
De qualquer forma ele segue válido. Aos sentimentos iniciais, junta-se agora o misto de ansiedade ainda maior e orgulho, como sempre.

Acontece que, a exemplo do que aconteceu com o cocô, Caio tem segurado o xixi. Mais do que isso, se realiza cada vez que o levamos ao banheiro e protesta firmemente, chorando, cruzando as pernas, se negando a colocar a fralda. Eu coloco e ele demonstra claramente sua insatisfação. Daí que comecei a pensar que talvez ele queira e possa sim ser desfraldado.

Como tudo que envolve o desenvolvimento dele, eu acho que existe uma "porção" de mim que tenta sabotar tudo. Eu jamais imaginei que ele um dia deixaria de usar fraldas. Para mim cadeira de rodas era sinônimo de fraldas (no caso dele, que não aprendeu estas etapas iniciais). E aí eu fico criando barreiras para não tentar.

Tenho preguiça, sim. Tenho medo dele não conseguir e se frustrar. Confesso: tenho medo dele não conseguir e EU me frustrar. Tenho receio de que, a exemplo do que acontece com qualquer criança, ele tenha períodos de "vazamento" e seja visto como um cadeirante sem higiene ou sem cuidado. Eu juro que não sei porquê, mas tudo em mim diz NÃO.

Converso com a psicóloga, discuto o assunto no grupo de pais. A maior dificuldade dos pais de crianças com deficiência é deixá-las ter autonomia. Por excesso de zelo, amor. Por querer protegê-las de tudo e todos que possam vir a magoá-las. Mas eis que a vida magoa a todos, deficientes ou não. Eis que todos um dia ouvirão um não, serão de alguma forma rejeitados... Ninguém é unanimidade sempre. E com nossos filhos não é diferente.

Lembro dos "médicos-urubus" como eu os caracterizei. Aqueles que me diziam que esperança era uma utopia sádica, que nos fazia querer o impossível e sofrer por não conquistá-lo. Do "doutor" que um dia me disse "Não adianta ter esperança, desista. Seu filho NUNCA vai ter nenhum tipo de avanço ou desenvolvimento".

E aí, bem neste momento, entra em cena Caio. O menino que não desiste. Que teima em desafiar as probabilidades e a lógica. O guerreiro Caio, como eu o chamo. Aquele que nasceu para vencer!

O menino que eu tenho em casa, que balbucia palavras, que se alimenta de comida de consistência praticamente normal, que respira sem suporte de oxigênio, não é o menino que a tomografia que apontava 80% de lesão cerebral previa no futuro. O menino que eu tenho em casa é este que vocês lêem por aqui, acompanham nas redes sociais. É uma criança feliz, que brinca a seu modo, que interage muito bem, que vai à escola, que adora música e futebol. E que decidiu que não quer mais usar fraldas.

Ele pode não saber se expressar com as palavras-padrão.
Mas há quase dois anos decidiu que o "número 2" ele só faria no banheiro, como qualquer criança de quatro anos. E agora, está chegando a vez do xixi.
Ele ainda não sabe expressar, se fazer entender. Mas segura ao máximo, aguardando a hora que ele acredita que alguém o levará ao banheiro. E a fralda, com raras exceções, vive seca.

Comentei lá na escola e a monitora dele começou a incentivar.
O resultado é que, em apenas uma semana, ele tem ido ao banheiro todos os dias na escola. Fazendo o serviço completo (número 1 e 2)! Tá super à vontade.

Se ele vai conseguir plenamente? Eu já não duvido de mais nada.
Que Caio não veio nesta vida à passeio, a gente já sabe.
Que ele é um lindo, também.
E ainda assim, não canso de me impressionar com sua dedicação e força de vontade em viver bem. Na condição dele. No tempo dele.

Que Deus siga te abençoando, meu filho.
Eu, como sempre, só tenho a agradecer a oportunidade de ser tua mãe e nunquinha parar de aprender contigo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Nossa Senhora das Lágrimas

Conversando no Facebook este final de semana com a sobrinha do meu compadre Edson, ela me conta que neste final de semana teve no município do Caraá (ao lado de Santo Antônio da Patrulha, RS) a festa de sua padroeira, Nossa Senhora das Lágrimas. E foi em lágrimas que me vi ao ser levada para um dia muito triste, apreensivo, mas também de muito amor e solidariedade.

Era o dia 20 de maio de 2005. Caio tinha apenas três dias de vida mas os médicos já me apontavam uma chance mínima de sobrevida, devido a sua infecção generalizada. Eu sozinha, marido na Europa, família toda longe achando somente que ele tinha nascido um pouco antes do tempo (coisa que aliás, eu também acreditava), preocupada com meu Yuri, naturalmente fragilizada pelo difícil trabalho de parto recente... E aí me falam que as chances do meu bebê sobreviverem eram quase zero. Óbvio que o desespero tomou conta de mim.

Então um telefonema. De amigos muito especiais, constantes. Que ligavam pelo menos duas vezes ao dia pro meu celular para saber como eu estava, como estava o bebê, se eu precisava de algo. Meus amados Janaína e Edson. A Jana é minha irmã de alma, não tenho a menor dúvida disso. E o Edson, seu marido, também é uma pessoa espetacular, de grande coração e caráter. E eu contava meu desespero à minha amiga, quando acho que ela não conseguiu conter a emoção do choro e passou ao Edson. E ele me perguntou o que estava acontecendo, eu relatei, chorando muito e falando que não queria perder meu filho. Do outro lado da linha, meu amigo também se emociona e chora. E me diz para me manter firme, com fé. Que ele iria pedir à Nossa Senhora das Lágrimas pelo "nosso" Caio. Que ela era uma santa muito poderosa e generosa, que haveria de nos atender. Mais: ele fez uma promessa, pela saúde e vida do Caio.

O resultado desta fé e desta promessa vocês conferem aqui, quase 7 anos depois.

Mas me emocionei demais ao relembrar tudo isso.

Eu já os tinha escolhido como padrinhos do meu novo filho, mas eles ainda não sabiam. Por alguma superstição tolinha herdada da minha mãe ou vó, eu só convidei os padrinhos dos meus dois filhos após o nascimento de ambos, embora a escolha tivesse sido feita logo após o positivo do teste de gravidez ou até mesmo antes (dinda Gabi sempre foi a dinda do meu primeiro filho, antes mesmo dele ser concebido). E eles já o amavam esse tantão. E eles estiveram ao meu lado quando não parecia haver ninguém mais. E eles me deram amor e lições de fé e emoção. E são os melhores padrinhos que o Caio ou qualquer outra criança poderia desejar. São também os melhores amigos que a vida me deu, não ouso errar neste juízo.

Amanhã é dia de Nossa Senhora das Lágrimas.
Uma das santas a quem devo as alegrias e a vida intensa no seu sentido mais bonito que meu Caio me proporciona há quase sete anos.


Reverencio esta santa.
Reverencio a fé.
Reverencio a amizade.
Reverencio o amor.
Obrigada por tudo isto, Pai Maior.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Inclusão escolar existe. Eu vi!

Hoje escrevo um post um pouco diferente. Também para os queridos leitores dos Meus Frutos, mas especialmente para todos os pais de crianças com deficiência do Brasil. Eu queria que chegasse a cada um que nosso sonho não é impossível. Quero lhes contagiar, encorajar, chamar para se juntar a nós. A inclusão na escola existe! Aquela mesma que a grande maioria me disse ser tão utópica quanto os contos de fadas infantis... Eu vi, eu vejo todo dia. E quero que vocês saibam disso.

Meu Caio tem paralisia cerebral tetraespástica, devido a erro médico na hora do parto. Aos 6 anos, não fala, balbucia apenas algumas sílabas com significado. Não anda, não senta sem apoio, não segura a cabeça. Tem crises convulsivas focais e do tipo ausência com freqüência. Toma três anticonvulsivos contínuos diariamente. Tem forte intolerância alimentar a uma série de comidas corriqueiras, como arroz, banana, leite. Usa fraldas e toma leite de soja na mamadeira. Não se alimenta sozinho.

Este foi o quadro apresentado à sua futura monitora, quando da inscrição dele numa escola regular de educação infantil (Jardim). Ela, funcionária da prefeitura de Canoas, RS, com mais de 20 anos de prática com crianças e capacitada através de curso de inclusão a receber alunos com necessidades especiais. Mas nunca tinha acompanhado uma com PC. Nunca um cadeirante. Era um desafio. Ela quase não aceitou, achou que a responsabilidade era demasiada. Não saberia se comunicar com “uma criança dessas” (palavras dela, ela me contou ao término do primeiro ano do Caio na escola). Ah, mas ela soube. E deu show!
Primeiro dia de aula: maio de 2011, os colegas todos se aproximando para se apresentar ao Caio

Como toda mãe, eu queria a melhor escola para meu filho.
A exemplo do que fiz com meu primogênito, Yuri, 11 anos, pensei primeiro nas particulares. Imaginei que em ambiente socioeconômico mais elevado meu Caio sofreria menos preconceito. Mas nenhum dos lugares que visitei ou conversei me pareceu realmente preparado. Não cheguei a ouvir uma negativa formal, mas as reticências me soavam tão repulsivas quanto.

Por insistência de minha mãe (ah, as sabedorias de mãe!), fui visitar a escola municipal do meu bairro. A melhor de todas as soluções, a dez minutos de nossa casa, sem necessitar de transporte adaptado. Mas aí, eu esbarrava no MEU preconceito. Era uma escola pública. Mais do que isso, pobre. Num bairro de subúrbio, com fama de violento. Definitivamente não era o que eu queria para meu filho.

Mas foi lá, no primeiro momento, que já senti tudo diferente. Ao conversar com a diretora, Claudia Pinheiro, muitas perguntas, normal, mas nenhum espanto aos meus relatos. Muita sinceridade também, ao me relatar que jamais tinham atendido um caso de inclusão tão “complexo”, mas que se fosse autorizado pela Secretaria Municipal de Educação, abraçariam esta missão com amor e afinco.

E foi isso que se sucedeu, durante os sete meses (de maio a dezembro de 2011) que Caio freqüentou o Jardim A. Todos aqueles relatos de crianças incluídas só no papel, de preconceito velado, que tanto me amedrontaram, viraram fumaça. Eu sei que demos a sorte grande. Mas isso só mostra que é possível. Que existem profissionais comprometidos com a educação de verdade e seres humanos comprometidos com a igualdade.

Brincando na pracinha com seu amigo mais constante: o anjo Gabriel

Passeio à Mostra de Arte comemorativa ao aniversário de Canoas

Caio se adaptou maravilhosamente. Chorava quando não ia à escola. Se integrou à turma rapidamente. Jamais deixou de fazer um passeio, de participar de uma atividade sequer. Lembro sempre do episódio da Oficina de Fandango (uma dança típica do Rio Grande do Sul), durante os festejos de nossa Semana Farroupilha, a semana do tradicionalismo gaúcho. Eu me peguei perguntando espantada à professora e à monitora, quando elas me pediram para assinar a autorização para o passeio: “Fandango? Mas ele é cadeirante!”. Eu vi barreiras. Elas não. Caio passeou, curtiu a música, o Parque de Eventos e, sim, dançou fandango, emocionando a todos que puderam assistir.

Caio dançando fandango, sim!
Caio foi ao parque, plantou, brincou de massinha, usou fantasias, pintou, fez piquenique com os colegas, participou do desfile cívico de 7 de setembro, se apresentou com dança e música junto aos colegas, foi convidado para sua primeira festa fora do círculo familiar!!! Caio foi criança como as outras e feliz como nunca! Teve convulsões, inclusive na própria escola, teve dias em que não pôde ir. Nunca foi visto como diferente ou especialmente como coitadinho por ninguém. Os colegas aprenderam logo que simplesmente era o “jeito dele” não andar ou precisar tomar certos remédios em determinada hora.

Plantando...

Primeiro desfile cívico - parece que sempre tinha feito isto
7 de Setembro
Festa do Dia das Crianças feita com rifas no valor de 10 reais
A professora e a monitora se interessaram ao máximo, foram atrás de livros, conversaram com os profissionais da ACADEF, onde Caio faz suas terapias de reabilitação. E fizeram, por conta própria, cursos adicionais de inclusão e sobre paralisia cerebral. Abriram mão de suas noites de descanso e de alguns sábado de folga para aprender a lidar ainda melhor com meu filho.

Descobrindo o mundo (literalmente) em passeio ao Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS
Ele levou mais música - uma língua universal - à turma
Grande emoção: Caio também era o ajudante do dia!
Ao se aproximar o término do ano letivo, a diretora, professora e monitora vieram conversar comigo. Acharam que Caio cresceu muito, começou a desenvolver melhor a fala, quer se mostrar autônomo tentando comer ou escovar os dentes com sua própria mão, como fazem os demais colegas. Que ele é inteligente, mas seria melhor se ele pudesse ficar mais um ano na educação infantil, justamente para ele amadurecer essas aptidões que despontaram em seu primeiro ano. Achei bárbaro. Foi a prova final do seu envolvimento com ele e com a educação de qualidade. Porque seria muito cômodo (e até natural) elas me dizerem que já tinha feito sua parte, já tinham lhe acolhido no Jardim, agora era hora dele ir adiante. Mas não. Fizemos juntas – eu e escola - um parecer e um pedido à SME que ficou em discussão por mais de dois meses. Lutaram junto comigo para ficar com ele mais um ano, apesar dele já ter 6 anos, o que por lei, lhe determinaria ingresso no primeiro ano do Ensino Fundamental. Mas elas acham que Caio pode – e deve – ir para o primeiro ano melhor preparado. E é o que vamos fazer, agora em 2012. Caio vai ter material escolar adaptado, tem metas de conquistas motoras e avanços pedagógicos. Já me puxaram as orelhas que elas vão ME ajudar no desfralde dele, que ele já demonstra há tempos estar pronto para. Isso é parceria de verdade.

Caio com a monitora Carla Tavares e a professora Eliane Souza, na festa de Natal

As aulas reiniciaram agora no início de fevereiro e foi uma beleza! Caio não estranhou nada. Ao contrário, estava estranhando o marasmo das férias! Voltou com a memória plena de todas as rotinas escolares, curtindo cada tarde que passa lá. E eu fico feliz demais de ter deixado o meu preconceito de lado e ter matriculado ele na Escola Municipal de Educação Infantil Vó Corina, no bairro Guajuviras, em Canoas O bairro antes violento que hoje é conhecido como Território de Paz. O lugar onde a igualdade é mais simples. Sempre que tenho a oportunidade de falar com nosso prefeito, Jairo Jorge, digo para ele parabenizar cada funcionário da Vó Corina. Nós, especialmente quando temos um deficiente na família, temos a mania de teorizar muito sobre inclusão. E foi lá na escolinha do subúrbio que eu ouvi a frase que simplifica tudo: “Não é preciso haver inclusão, quando existe amor ao próximo”.

Muro da EMEI Vó Corina - Canoas - RS

Fica a dica para todos os pais e cuidadores. A inclusão existe. Às vezes ela pode estar no lugar que nos parece mais improvável. Mas ela é linda, inconfundível. Não duvidem nunca de que vocês também podem encontrá-la.