domingo, 25 de setembro de 2016

Bons sentimentos são exercícios

Estava aqui pensando em alguns feedbacks que recebo das pessoas de meu convívio, amigas próximas, leitores do blog, amigos de redes sociais, de qualidades positivas que, generosamente, enxergam em mim. Alegria, bom humor, determinação, positividade, são algumas listadas.

Vou confessar para vocês.
Eu não sou assim.
Mas me esforço muito para ser.

Sou ansiosa, mas me esforço para ter serenidade. Meu humor é oscilante, mas me esforço para mantê-lo no patamar mais elevado possível. Sou insegura, mas uso de todas as ferramentas que disponho para aflorar meu lado mais motivado. Enfim, eu luto brava e constantemente para reverter o jogo.

Dentre os tantos aprendizados que a vida me trouxe, acredito que o maior deles foi o de que "a felicidade é um hábito". Ouvi isso num vídeo e me marcou demais. E hábitos se constroem. Se cultivam - e o cultivo, nem sempre é fácil. Pelo contrário, se exige empenho, tempo, cuidado. Os bons sentimentos que carregamos no peito e vida afora são exercícios. Se não os cultuarmos diariamente, tais como músculos, eles enfraquecem e deixam de existir.


Exercito meu bom humor. Uma querida amiga disse dia desses que adora minha capacidade de fazer piada de mim mesma. Respondi: prefiro ser caricata à infeliz. Exercito minha fé de que tudo vai dar certo, sempre da melhor forma. Prefiro ser utópica à pessimista. Exercito minha tenacidade, lutando contra árduos obstáculos. Prefiro insistir do que desistir. Exercito. Alguns dias, falho. Tudo bem. No outro, sigo exercitando. 

Os maus sentimentos nada me agregam. Tornam meus dias e minha vida sem sentido, um muro de lamentações. Os bons sentimentos me trazem razões para continuar. Justificam, com sua existência, todos os caminhos percorridos, apesar das asperezas. Então, eu quero ser feliz, motivada, forte, bem humorada, amorosa, grata, sensível, amiga, dedicada, batalhadora, competente, inspirada. E para isso, eu exercito este querer todos os dias. É mesmo incrível a capacidade que ele tem.

Hoje, de novo, é aquela horinha de começar a se organizar para a semana que vai começar. Minha dica é: queira ser feliz. Deseje ser positivo, motivado, alegre, grato por sua rotina. Motivos para o contrário devem existir às pencas. Abra os olhos e coração para ver os ganhos que exercitar os bons sentimentos vão te trazer. 

Repito: Queira ser feliz. E seja!

Uma semana cheia de bons exercícios a todos! Depois, deixa nos comentários, como tem sido. 

Um beijo,
Cláudia

domingo, 18 de setembro de 2016

Bota fé e vai!

Na minha palestra “Desafios e Possibilidades da Deficiência”, um dos tópicos fala de fé. Sem levantar bandeiras em prol de uma ou outra religião e/ou crença. Mas eu falo que acredito que por mais pragmática, materialista ou objetiva que a pessoa se considere, existem experiências na vida que praticamente inviabilizam a teoria de que somos apenas um conjunto de átomos e que existimos somente durante o breve espaço entre nascer e morrer.

Tudo há de ter um porquê. Um motivo. Ou, como eu prefiro denominar, uma missão, um propósito. Não entra em minha cabeça que recebamos diariamente, um caminhão de desafios a serem superados por nada. Que grandes tristezas tenham que ser enfrentadas por mero acaso. Ou até mesmo que imensas e, por vezes, inesperadas alegrias, batam despretensiosamente na porta de cada um.

Em primeiro lugar, quando a gente tem fé, a gente acredita no amanhã, com confiança e sem ansiedade. Quando a gente crê que a vida é algo além de nossas forças físicas, nos conectamos com ela em sua essência, apreciando sua beleza. Quando olho para as maravilhas da natureza, evidenciado num lindo pôr do sol, por exemplo, eu posso trazer todas as leis da química, física e biologia para justificá-lo. Ah, mas para explicar o encantamento com o qual ele nos toca... Aí surge o nome de Deus, de Buda, de Oxalá, de uma deusa mitológica ou da energia universal. E esta apreciação, unida a esta fé em algo além das evidências materiais, nos preenche de sentimentos bons. De positividade. De esperança. De ternura. De contemplação.


E estar preenchido de sentimentos bons, aí a neurociência comprova, é um grande portal de entrada para coisas ainda melhores – físicas, psíquicas, emocionais. E quem não quer o melhor para si mesmo? Então, encerrando o domingão, te faço um convite. No lugar da lamentação pelo término do final de semana, vamos colocar fé? No lugar do cansaço e mau humor antecipado pela segunda-feira, vamos colocar fé? Fé de que tudo vai dar certo. Fé na tua capacidade de realização. Fé nos teus projetos e sonhos. Fé em Deus, num orixá, na Bíblia ou no Livro de Mórmon, numa imagem, num patuá, oração ou ritual, se assim te fizer sentir ainda mais confiante. Mas, principalmente, bora botar fé na vida? Uma vida mais feliz depende essencialmente de acreditar que ela é possível. Bota fé e vai! Depois, aqui nos comentários ou na nossa página do Facebook, me conta como foi!

Uma semana inspiradora e motivada a todos!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Tempo de Florir

E as respostas, vêm da Natureza. Vivo dias difíceis, onde a ansiedade é meu maior inimigo. Quando?, me pergunto. Quando parar de desejar fixamente? Quando estiver distraída? No tempo de Deus, eu sei... Mas árdua tarefa aguardar o agir dEle e não seguir se perguntando... Quando? Mais uma vez a resposta veio do meu humilde pomar. Fui colher limões para um suco e minha atenção é desviada... Olho mais de uma vez. Não sei o nome desta planta. Sei apenas que ela gera uma linda flor alaranjada. Era uma das paixões de minha querida vó Piti. Quando saí de Porto Alegre e vim para Canoas, em dezembro de 2003, trouxe várias mudas comigo. Mas, ao longo destes anos, ela nunca floresceu. Nunca. Uns tempos atrás, fitei-a no pátio e me perguntei se não seria tempo de deixá-la morrer. Porém, mesmo sem flor, ela seguia viva. Qual o propósito, se não florescia? Pois hoje, quase 13 anos depois, seu colorido alaranjado desviou meu olhar do limoeiro. Carregada de botões em flor. Eu, que nem acreditava mais rever esta cena, me emocionei. Ela está florindo. Quando as flores deixaram de ser alvo de ansiedade e preocupação. Quando não havia ninguém observando. No tempo que foi necessário, ela volta a se abrir em flor.
Coincidentemente minha mãe deu uma passada rápida aqui em casa e lhe comentei o fato. "Bah, então este é o ano das flores, me disse ela", relembrando da outra muda de flor que cultivo e que demorou exatamente 364 dias para voltar a florir.
A natureza, minha mãe, o Universo, todos juntos trazem as respostas.
Calma, Cláudia. Serena teu coração. Teu jardim também está prestes a se abrir em flor. Enquanto o dia não chega, aprecia a companhia dos limões, das kalanchoes, a colheita da arruda, do gengibre e o reflorescer do manjericão. Ou seja, desfruta das paisagens e sabores que a vida te oferta, enquanto não desabrocham tuas flores. Vive e confia. A primavera - da tua vida - está chegando.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A palavra é o meu destino

Eu aprendi a escrever sozinha, aos cinco anos de idade. Guiada pelo dedo indicador de minha mãe, que me lia gibis em seu colo, fui linkando as letras e formando as palavras. Quando ingressei na escola, aos seis então, eu já estava mais do que familiarizada com elas, apaixonada. E decretei: quando crescer, vou ser escritora.

Aos 10 anos, já com uma coleção de poesias e textos autorais, além de uma grande intimidade em leituras diárias com o jornal Correio do Povo em seu tradicional formato tablóide, escolhi a futura faculdade: Jornalismo. Escolha esta que, ditada pela alma livre dos meus 17 aninhos - quando da inscrição para o vestibular - virou Publicidade, pois eu desejava maior autonomia criativa a meus textos.


No caminho, desvios, decepções... e eu parecia me afastar do destino traçado por aquela menina de cinco anos. Em 2004, no auge da frustração profissional, criei meu primeiro blog. Neles, liberdade para minhas crônicas e ideias, traduzidas em palavras. Confesso que este primeiro blog, tinha apenas três leitores assíduos e fiéis. Hoje tenho convicção, mais pelo generoso afeto de suas amizades para comigo do que propriamente por meu talento literário.

Em 2005, nasceu Caio, meu segundo filho. E sua chegada um tanto conturbada - fruto de uma gravidez não planejada, prematuro, risco de vida, pai do outro lado do planeta - foi a mola propulsora para que, mais uma vez, eu me agarrasse às palavras. Fiz do blog meu diário, meu primeiro grande terapeuta, meu confidente, durante os 55 dias que Caio ficou na UTI Neonatal. E eis que um dia, recebo um email, de uma moça, se identificando ser de Campinas, que tinha lido minha história, estava solidária ao que eu passava, torcia por Caio. E chegou outro email, de outra moça, de Minas Gerais. E outro, de São Paulo. Do Rio de Janeiro. De Portugal! Dos Estados Unidos! Como assim? O que tinha acontecido? No fundo, eu sabia a resposta, desde o início. Ainda que fossem textos de caráter extremamente pessoal, minhas palavras tinham tocado o coração das pessoas.

E contextualizem este alcance, em tempos que as redes sociais engatinhavam. O finado Orkut era bebê. Não haviam os compartilhamentos de posts e tantas outras facilidades digitais. Internet banda larga ainda era raridade. Pois meus textos me linkaram a pessoas. Criaram laços de afetos e oportunidades. De viagens. De trabalho. De ajudas a meu filho.

Para quem não sabe, está chegando agora, meu filho caçula tem paralisia cerebral. E por conta disto, fiquei sete longos anos afastada do mercado publicitário. Deixei de ser redatora. Mas nunca deixei de escrever.Entre meus hábitos, ter sempre à mão, uma pequena caderneta e um caneta. Uma paisagem vista de dentro do ônibus. Uma situação cotidiana. Um pensamento. Tudo pode virar inspiração com uma necessidade urgente e quase imediata de se transformar em palavras. Sim, sempre elas... As palavras. Que me trouxeram ao lugar que estou, que me fizeram ser quem sou hoje.





E quem eu sou hoje? Ainda uma aprendiz da vida. Ainda uma apaixonada pelas palavras (ainda bem!!!). Nascidas em meus textos, elas hoje tomam minha voz. E falo sobre como cheguei até aqui. Falo do que vi da vida. De uma trajetória que nem sempre me sorriu, mas que eu decidi sorrir pra ela. Falo sobre vencer a si mesmo. Sobre a felicidade como escolha e como hábito. Sim, eu recebi apoios, procurei ajudas, não andei sozinha. Mas a iniciativa transformadora sempre partiu de mim. 





Eu sou a autora de minha própria história.
E a palavra é o meu destino.

Sejam bem-vindos à nova fase do Meus Frutos!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A fralda Jota

Há cerca de um mês, Caio deixou de usar fraldas infantis (ele usava XXG) e passou a usar fraldas J. Jota de Juvenil. Uma escala antes dos tamanhos de adulto. Foi o natural caminho de seu crescimento e resultado também dos 12 quilos a mais pós gastrostomia. Mas sinto a necessidade de compartilhar que, por isto, vivo mais um luto.

Houve um tempo em que ele até ensaiou um desfralde. Mas, não conseguiu ir adiante. 
E a mim, é inevitável não sentir cada "não" com o triste sentimento de fracasso. Sim, sou ciente de tudo o que já conquistamos, tão enormemente além dos prognósticos iniciais. Mas não conseguir, ainda machuca. 

Penso que cada "não consequimos" nos afasta da normalidade que eu tanto idealizei (e, aí atentem, estou falando de mim, exclusivamente de meus sentimentos). Algumas vezes, o não me assombra com fantasmas futuros: Como serão as dificuldades, responsabilidades e até mesmo complicações mais adiante? Cada não, é uma luta que foi perdida. Apesar de todo o nosso empenho. Ao mesmo tempo, o não me lembra que, apesar de tudo, a gente vai seguir. Que a dor, que agora acolho, também vai passar. Um dia, talvez volte aqui e fale da superação dela.

E esta é a insistente sementinha que ando querendo distribuir por aí, quando falo em aceitação. Aceito toda nossa trajetória e tudo o que vivemos até aqui. Mas também sei que alguns momentos serão mais difíceis do que outros; ainda que apenas inicialmente, ainda que só aqui dentro do meu coração. Aceito e acolho meu sofrimento pela confirmação de um filho pré adolescente que precisa usar fraldas. Não julgo se estou certa ou errada em sentir assim, pois afinal é exatamente assim que sinto. Aceito. Sei que fizemos nosso melhor. E tento ver que não é que este esforço não foi suficiente. Foi na medida para nos trazer ao patamar que estamos hoje. Abraço minha frustração e digo a ela: tudo bem, tu também vens para me fazer crescer. Hei de entender, logo mais.

Coragem para mudar o que se pode mudar, serenidade para aceitar o que não se pode mudar e sabedoria para distinguir uma situação da outra, eternizou São Francisco. Serenidade. Palavra linda. Conquistada. Estou triste. Mas serena. Já mudamos tantas coisas... Já sorrimos por tantas árduas vitórias. Uma fralda Jota é apenas mais uma lição que fica. No caminho, nem tudo é flor. Mas tudo pode virar fruto.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Prematuridade e o tempo

Hoje é o Dia do Prematuro. Segundo a literatura médica, prematuro é o bebê nascido antes das 37 semanas de gestação. Caio, que veio ao mundo com 33 semanas e 5 dias, é considerado um prematuro moderado. Sua paralisia cerebral e sequelas não são resultado desta prematuridade. Clínica e juridicamente foi comprovado que deveriam ter deixado ele estrear no mundo no dia em que ele escolheu - 12 de maio. Cinco dias contra o tempo escolhido por ele e meu organismo, mudaram toda a história. E ao longo destes quase 11 anos, não foram poucas as vezes em que me questionei sobre este grande Mestre: o Tempo.

Sempre digo que Caio nasceu com urgência de viver. Não quis esperar julho despontar, como indicava o acompanhamento de pré-natal. E vindo, chegou para experimentar e causar todas as mais fortes emoções juntas: medo, coragem, dor, fé, doação, impotência, generosidade. Menino que nasceu intenso.

Lembro quando ele completou seu primeiro mês de vida na UTI. Quis lamentar ele não estar em casa. Ao contrário, celebrei este precioso, até mesmo inimaginável, tempo de vida. O tempo foi meu aliado. E foi também meu carrasco quando a alta hospitalar nunca vinha - 30, 42, 55 dias. E então ela chegou! E teríamos todo o tempo do mundo!
Tempo para descobrir que ele não fazia nada ao tempo tradicional. Não sorriu. Não sentou. Não andou. Não falou. Tempo de entender que dali pra frente, a vida deixava de ser guiada pelo calendário e passaria a ser medida pelo alcance. Quão longe conseguimos ir.

Se ele não viveria um ano, segundo os prognósticos mais otimistas; estamos às vésperas de celebrar seu décimo primeiro aniversário. Se ele não sorriria... A vida, o amor, lhe ensinaram. E isto, ele nunca mais desaprendeu. Se ele teria um grave comprometimento; hoje ele é o feliz aluno da quarta série do ensino regular. Se nada seria possível; hoje tudo é uma possibilidade. Talvez melhore sua comunicação, talvez consiga ainda algum tipo de marcha - mesmo que não independente. Quanto tempo passou? Nem lembro mais! 
O fato é que aquele valente bebezinho prematuro tem chegado bem longe.

Não foram poucas as vezes em que quis voltar no calendário e mudar aquele nosso maio de 2005. O tempo - sempre ele - me trouxe o entendimento e a paz de que está tudo certo. O tempo não erra; não há cedo ou tarde. Caio pode ser prematuro, mas nasceu no tempo certo. Cumprimos nosso destino, este nosso reencontro foi muito bem planejado. Desde os mais antigos tempos a gente combinou de amar um ao outro. E assim tem sido!


sábado, 12 de março de 2016

"Eu serei tuas pernas..."

Tenho oito tatuagens. Nenhuma delas fruto de impulso juvenil. A primeira chegou depois dos 37 anos. Todas planejadas, pensadíssimas. Mas a mais significativa delas, completou um ano esta semana.
Foi para Caio. Foi por Caio. E por mim.
Eu acredito que uma das maiores expectativas da família e da sociedade para com uma criança com paralisia cerebral é vê-la caminhando (embora, claro, nem todos os PCs sejam cadeirantes). Ao menos comigo, foi assim.
Quando Caio completou um ano, transferi meu sonho de vê-lo dar seus primeiros passos para o segundo aniversário. O que não aconteceu. Então imaginei que poderia acontecer, quem sabe, no quinto ano, no sétimo... Neste meio tempo - aos três para quatro anos - veio a primeira cadeira de rodas substituindo o carrinho de bebê e um dos primeiros choques de realidade: sim, ele era cadeirante; não, ele não conseguia andar.
Mas a vida foi me trazendo maturidade para entender e aceitar. Talvez ele nunca ande. E nossa - nem a dele, nem a minha - alegria em viver não pode ser atrelada a isso. Não fazemos fisioterapia com o objetivo exclusivo dele vir a caminhar. Onde exerço minha fé, também. Vivemos por onde nos faz bem. A fisioterapia evita atrofias e dores. A fé fortalece a alma para amparar o corpo.
Sempre afirmo que Caio transformou todo o meu olhar sobre a vida e as pessoas. Principalmente me ensinou que ser guiada pelo coração não é sinônimo de fragilidade. Nosso coração é sábio e forte, na imensa maioria das vezes conhece as melhores escolhas, os melhores caminhos.
Então eu assumi, como já disse, especialmente para mim: meu filho não consegue andar. Mas isso não o faz menos amado nem menos feliz. E tatuei a imagem e escrevi este texto no mesmo dia, a sua tradução literal: 
O tempo que preciso for
Ainda que nossas vidas inteiras, meu filho
Eu serei tuas pernas
E serás tu meu coração
Um ano se passou. A gente segue lutando, fazendo fisio e exercitando a fé de que nada é impossível. Mas, principalmente, seguimos sendo alegres e gratos pelo que temos: a oportunidade diária de sonhar, lutar e sorrir. Está marcado no corpo, tatuado em nossas almas.