terça-feira, 31 de dezembro de 2013

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quando o deficiente é meu filho

Hoje, 3 de dezembro, é o Dia Internacional do Deficiente Físico. É dia do meu filho Caio. E então lembro que foi num mês de dezembro que comecei a entender que aquele pescocinho que não se firmava, que aquelas mãozinhas que não se abriam, tinham um nome bem assustador: paralisia cerebral. E que ela faria parte da vidinha dele e o incluía neste grupo - o dos deficientes.

É bem como dizem: é possível se teorizar muito sobre dificuldades, sofrimento, fé, perseverança e todo o tipo de comportamento que o ser humano pode ter em situações-limites. Mas é só quando elas batem à sua porta, é que tu vais descobrir quem tu és de verdade. E aí não estou falando em condenar o sentimento de revolta ou em glorificar aqueles que parecem saber lidar tão naturalmente com tudo. A verdade é que ninguém está pronto para ter um deficiente em sua família. Ninguém deseja, ninguém espera, ninguém se prepara para. Até que acontece.

Obviamente que tive todos as compreensíveis reações de uma mãe: chorei, neguei, busquei curas milagrosas. E o aprendizado que tive ao longo destes oito anos só me fez crescer e poder olhar cada vez mais para o meu próximo exatamente como ele é: um ser humano.

Sempre digo que a luta que travo por Caio não é diferente da luta que travaria pelo Yuri, meu outro filho. Quero que Caio tenha educação de qualidade, assistência médica capacitada, direito de ir e vir, acesso ao lazer, que seja aceito e respeitado na sociedade enquanto criança e cidadão. Exatamente o que desejo ao Yuri. Mas para que Caio conquiste essas metas, o caminho é muito mais árduo do que para Yuri. Porque existe o preconceito. A falta de informação. As cidades inacessíveis. O transporte público precário. E, acima de tudo, a má vontade do outro.

Bato na tecla de que não quero benefícios adicionais a Caio, como se para compensar sua deficiência. Quando ele for respeitado e tiver seus direitos garantidos porque, afinal, é uma criança como outra qualquer - salve suas necessidades especiais, esta barreira deixará de existir.

Longo e árduo caminho, eu bem sei. Mas, fora os momentos de natural cansaço, é o que há de mais gratificante. Se existe algo que me fez ver que tenho um papel neste mundo é ter me tornado mãe do Caio. Por ele, que me ama incondicionalmente, assim como eu o amo. E pelo que ele trouxe para minha vida. Hoje amo mais o ser humano por causa dele. Se ainda existem tantos que precisam aprender a respeitar o próximo, existem também aqueles que estendem a mão sem sequer olhar à quem. E esta descoberta, foi meu filho, em sua cadeira de rodas e com todas as suas limitações, que me oportunizou.


Ainda que eu não goste muito da denominação "especial", dizem que só quem é especial recebe um filho com deficiência. Assim como a expressão de que cada um recebe o "fardo" que tem capacidade de carregar. Acho que em ambos os casos, há exceções. Mas é sim, lindo de ver e sentir que consigo fazer de meu filho uma criança feliz. É recompensador ver a superação de si mesmo que ele é capaz, me fortalecendo para meus próprios desafios pessoais.  


É, o deficiente físico é meu filho. Mas, como tão sabiamente me disse uma vez o Yuri, "que bom que ele é nosso. Pois nós sabemos amá-lo como ele merece".