quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Redescobrindo Diogo

Mais um texto do Mainardi sobre seu filho. Acho que este foi o primeiro. Lindo e verdadeiro como todos.

Meu pequeno búlgaro

Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de 7 meses. Vista de fora, uma notícia do gênero pode parecer desesperadora. De dentro, é muito diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Ou seja, nenhum desespero, só estupor. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de informações sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Depois tentaria aprender seus costumes e sua língua, a fim de poder me comunicar com ele. No caso da paralisia cerebral, fiz a mesma coisa. Passei catorze horas por dia diante do computador, fuçando o assunto na internet. Memorizei nomes. Armazenei dados. Conferi estatísticas. Pelo que entendi, a paralisia cerebral confunde os sinais que o cérebro envia aos músculos. Isso faz com que a criança tenha dificuldades para coordenar os movimentos. Meu filho tem uma leve paralisia cerebral de tipo espástico. Os músculos que deveriam alongar-se contraem-se. Algumas crianças ficam completamente paralisadas. Outras conseguem recuperar a funcionalidade. É incurável. Mas há maneiras de ajudar a criança a conquistar certa autonomia, por meio de cirurgias, remédios ou fisioterapia.

Um dia meu filho talvez reclame desta coluna, dizendo que tornei público seu problema. O fato é que a paralisia cerebral é pública. No sentido de que é impossível escondê-la. Na maioria das vezes, acarreta algum tipo de deficiência física, fazendo com que a criança seja marginalizada, estigmatizada. Eu sempre pertenci a maiorias. Pela primeira vez, faço parte de uma minoria. É uma mudança e tanto. Como membro da maioria, eu podia me vangloriar de meu suposto individualismo. Agora a brincadeira acabou. Assim que soube da paralisia cerebral de meu filho, busquei apoio da comunidade, entrando em tudo que é fórum da internet para ouvir o que outros pais em minha condição tinham a dizer sobre os efeitos colaterais do Baclofen ou sobre a eficácia de tratamentos menos ortodoxos, como a roupa de elásticos dos astronautas russos usada numa clínica polonesa.

A paralisia cerebral de meu filho também me fez compreender o peso das palavras. Eu achava que as palavras eram inofensivas, que não precisavam de explicações, de intermediações. Para mim, o politicamente correto era puro folclore americano. Já não penso assim. Paralisia cerebral é um termo que dá medo. É associado, por exemplo, ao retardamento mental. Eu não teria problemas se meu filho fosse retardado mental. Minha opinião sobre a inteligência humana é tão baixa que não vejo muita diferença entre uma pessoa e outra. Só que meu filho não é retardado. E acho que não iria gostar de ser tratado como tal.

Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica antiiluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência: passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro.


Caio: meu gigante e idolatrado búlgaro.

10 comentários:

Jana disse...

Cada vez que eu lei um post seu me emociono, vc escreve divinamente, vc é um exemplo de ser humano, não só de mãe, que esse quem te conhece já sabe que vc é, mas de ser humano, daqueles tão bons que a gente pode contar nos dedos das mãos o número de gente assim que a gente conhece pessoalmente.
Muito obrigada por ser minha amiga e por compartilhar sua vida e sua história comigo.
TE AMO.
P.S.: Eu sei que o texto é do Diogo tá ????

Bárbara (motherns) disse...

Esse texto poderia ter sido escrito por vc, né não?!
Eu vejo seu amor pelo Caio em cada linha desse post!
Tô começando a achar que vc e o Diogo são a mesma pessoa!!
Beijos minha amada!

Bárbara de Guareí!!! disse...

Que texto mais lindo...
Eu tenho um primo, não sei se ja te falei, a mãe dele pegou rubéola nos primeiros meses... Ele não fala, não anda, não ouve... Mas é lindo... Ele tem 16 anos hj... Os médicos só deram 1 ano de vida... Ele tem muito amor dos pais... A vida dele não é menos que a dos irmãos ele tem mais 3!!! heheehhe
E o Caio, é o dono do sorriso mais fofo!!!
Beijos no pequeno guerreiro!!!

Luciana Pessanha Pires disse...

Oi
Muito carinho,querida! Tenha um excelente dia!
http://www.caminhodapoesia.blogspot.com

Carol disse...

Dinha, linda!
Ando me emocionando com esses textos! Se vc não é o Diogo, meu Deus do céu, quanta semelhança, não?
O amor realmente é a força que mais faz valer e isso vc tem de sobra.
Bjs querida.

Dri&Mari disse...

Dinha, o texto é lindo como o seu amor pelo seu filho!!! A cada post eu te admiro mais e mais...beijão!!

Val disse...

como as meninas disseram, parece q foi tu quem escreveu o texto. Chorei né?? Mas não conta pro Gus! rsrsrs....

Eva disse...

Dinha, minha flor, obrigada pelos tsunamis, chegaram até mim com certeza. Em breve farei um post sobre isso.
Lindo os textos e se você me falasse que foram escritos por você eu acreditaria pois vejo toda essa delicadeza e verdade quando você fala do problema que o Caio enfrenta. E que belo guerreiro ele tem demonstrado ser, hein?
Bjs

Chris disse...

Dinha, mais um lindo texto do Diogo... que poderia muito bem ter sido escrito por você!
Beijos enormes, um grandão neste menino Búlgaro tão lindo e fofo!!!

Carla disse...

Quando eu estava no brasil gostava de ler os textos dele e as vezes me chocava com tanto humor.
Estou admirada com a coragem e a sensibilidade que ele teve em abordar um tema tao discriminado no brasil, quando fala de sua propria vida e de seu amor.

QUERIDA UM BEIJO.

AHHHH VOU ME APRESENTAR SOU A CARLA DO "HISTORIASDEMARIAS.BLOGSPOT.COM