quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher com letras maíusculas

Nasci mulher quando meu pai torcia por um primogênito macho. Ainda na primeira infância passei fome e conheci dentro de casa a violência doméstica. Cresci determinada a não repetir a história de infelicidade de minha mãe. Fui a primeira mulher de minha família a concluir o ensino superior. Quando iniciei minha vida profissional, em meu meio, predominava o sexo masculino. Casei, tive filhos e dilemas entre maternidade e profissão. A primeira venceu. Fui traída, oprimida e entrei para a estatística das mulheres que são agredidas mas têm medo de denunciar seu agressor. Ainda assim, fui julgada - inclusive por outras mulheres – como culpada, por não entender que homens são assim mesmo. Tive depressão profunda e não queria mais viver.

Mas, virei o jogo. Busquei forças em minhas entranhas e me resgatei. Com mais de 40 anos. Quando alguns já podiam – mais uma vez – me condenar. À velhice. Ao conformismo. Recomecei do zero, mas com dois filhos à tiracolo. Mais uma vez, comi o pão que o diabo amassou. Mas venci. Hoje sou mulher e mãe. Mulher e profissional em ascensão. Mulher e aprendiz. Ousada o suficiente para ainda explorar muitos caminhos novos. Independente, plena, positiva. Mulher e feliz.


Aceito as honrarias, aceito as flores. Me acho muito merecedora de todo o reconhecimento que a data permite, pois ainda somos queimadas em praça (e opinião) pública. Inclusive, por nós mesmas. Ainda somos destratadas na sociedade, humilhadas em relacionamentos abusivos, preteridas em vagas de emprego. E estamos aqui. Com a cara e a coragem para não aceitar mais isso. Sei que apesar de tudo o que passei, sou privilegiada. Honrei a caminhada de minhas ancestrais e a deixei um pouco mais leve para minhas descendentes. Deixo de legado, resiliência, garra, superação. Mas com alegria na alma, amor no coração e um sorriso no rosto. Porque sou MULHER.

Um comentário:

Guilherme Rosa disse...

Esta é apenas uma manifestação de uma das mulheres que admiro pela sua trajetória de vida, por mostrar que acima de qualquer preconceito, acima de qualquer dificuldade, além de qualquer, " pão que o diabo amassou", há mulheres que podemos chamar de CLAVA FORTE. Lutam, mesmo quando homens cortam suas unhas, e arrancam seus dentes, ainda assim, elas possuem armas para lutar, pois nunca perdem o amor e a esperança. Grande beijo Claudinha, Parabéns por todos os dias das mulheres, em especial HOJE!