quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Inclusão escolar existe. Eu vi!

Hoje escrevo um post um pouco diferente. Também para os queridos leitores dos Meus Frutos, mas especialmente para todos os pais de crianças com deficiência do Brasil. Eu queria que chegasse a cada um que nosso sonho não é impossível. Quero lhes contagiar, encorajar, chamar para se juntar a nós. A inclusão na escola existe! Aquela mesma que a grande maioria me disse ser tão utópica quanto os contos de fadas infantis... Eu vi, eu vejo todo dia. E quero que vocês saibam disso.

Meu Caio tem paralisia cerebral tetraespástica, devido a erro médico na hora do parto. Aos 6 anos, não fala, balbucia apenas algumas sílabas com significado. Não anda, não senta sem apoio, não segura a cabeça. Tem crises convulsivas focais e do tipo ausência com freqüência. Toma três anticonvulsivos contínuos diariamente. Tem forte intolerância alimentar a uma série de comidas corriqueiras, como arroz, banana, leite. Usa fraldas e toma leite de soja na mamadeira. Não se alimenta sozinho.

Este foi o quadro apresentado à sua futura monitora, quando da inscrição dele numa escola regular de educação infantil (Jardim). Ela, funcionária da prefeitura de Canoas, RS, com mais de 20 anos de prática com crianças e capacitada através de curso de inclusão a receber alunos com necessidades especiais. Mas nunca tinha acompanhado uma com PC. Nunca um cadeirante. Era um desafio. Ela quase não aceitou, achou que a responsabilidade era demasiada. Não saberia se comunicar com “uma criança dessas” (palavras dela, ela me contou ao término do primeiro ano do Caio na escola). Ah, mas ela soube. E deu show!
Primeiro dia de aula: maio de 2011, os colegas todos se aproximando para se apresentar ao Caio

Como toda mãe, eu queria a melhor escola para meu filho.
A exemplo do que fiz com meu primogênito, Yuri, 11 anos, pensei primeiro nas particulares. Imaginei que em ambiente socioeconômico mais elevado meu Caio sofreria menos preconceito. Mas nenhum dos lugares que visitei ou conversei me pareceu realmente preparado. Não cheguei a ouvir uma negativa formal, mas as reticências me soavam tão repulsivas quanto.

Por insistência de minha mãe (ah, as sabedorias de mãe!), fui visitar a escola municipal do meu bairro. A melhor de todas as soluções, a dez minutos de nossa casa, sem necessitar de transporte adaptado. Mas aí, eu esbarrava no MEU preconceito. Era uma escola pública. Mais do que isso, pobre. Num bairro de subúrbio, com fama de violento. Definitivamente não era o que eu queria para meu filho.

Mas foi lá, no primeiro momento, que já senti tudo diferente. Ao conversar com a diretora, Claudia Pinheiro, muitas perguntas, normal, mas nenhum espanto aos meus relatos. Muita sinceridade também, ao me relatar que jamais tinham atendido um caso de inclusão tão “complexo”, mas que se fosse autorizado pela Secretaria Municipal de Educação, abraçariam esta missão com amor e afinco.

E foi isso que se sucedeu, durante os sete meses (de maio a dezembro de 2011) que Caio freqüentou o Jardim A. Todos aqueles relatos de crianças incluídas só no papel, de preconceito velado, que tanto me amedrontaram, viraram fumaça. Eu sei que demos a sorte grande. Mas isso só mostra que é possível. Que existem profissionais comprometidos com a educação de verdade e seres humanos comprometidos com a igualdade.

Brincando na pracinha com seu amigo mais constante: o anjo Gabriel

Passeio à Mostra de Arte comemorativa ao aniversário de Canoas

Caio se adaptou maravilhosamente. Chorava quando não ia à escola. Se integrou à turma rapidamente. Jamais deixou de fazer um passeio, de participar de uma atividade sequer. Lembro sempre do episódio da Oficina de Fandango (uma dança típica do Rio Grande do Sul), durante os festejos de nossa Semana Farroupilha, a semana do tradicionalismo gaúcho. Eu me peguei perguntando espantada à professora e à monitora, quando elas me pediram para assinar a autorização para o passeio: “Fandango? Mas ele é cadeirante!”. Eu vi barreiras. Elas não. Caio passeou, curtiu a música, o Parque de Eventos e, sim, dançou fandango, emocionando a todos que puderam assistir.

Caio dançando fandango, sim!
Caio foi ao parque, plantou, brincou de massinha, usou fantasias, pintou, fez piquenique com os colegas, participou do desfile cívico de 7 de setembro, se apresentou com dança e música junto aos colegas, foi convidado para sua primeira festa fora do círculo familiar!!! Caio foi criança como as outras e feliz como nunca! Teve convulsões, inclusive na própria escola, teve dias em que não pôde ir. Nunca foi visto como diferente ou especialmente como coitadinho por ninguém. Os colegas aprenderam logo que simplesmente era o “jeito dele” não andar ou precisar tomar certos remédios em determinada hora.

Plantando...

Primeiro desfile cívico - parece que sempre tinha feito isto
7 de Setembro
Festa do Dia das Crianças feita com rifas no valor de 10 reais
A professora e a monitora se interessaram ao máximo, foram atrás de livros, conversaram com os profissionais da ACADEF, onde Caio faz suas terapias de reabilitação. E fizeram, por conta própria, cursos adicionais de inclusão e sobre paralisia cerebral. Abriram mão de suas noites de descanso e de alguns sábado de folga para aprender a lidar ainda melhor com meu filho.

Descobrindo o mundo (literalmente) em passeio ao Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS
Ele levou mais música - uma língua universal - à turma
Grande emoção: Caio também era o ajudante do dia!
Ao se aproximar o término do ano letivo, a diretora, professora e monitora vieram conversar comigo. Acharam que Caio cresceu muito, começou a desenvolver melhor a fala, quer se mostrar autônomo tentando comer ou escovar os dentes com sua própria mão, como fazem os demais colegas. Que ele é inteligente, mas seria melhor se ele pudesse ficar mais um ano na educação infantil, justamente para ele amadurecer essas aptidões que despontaram em seu primeiro ano. Achei bárbaro. Foi a prova final do seu envolvimento com ele e com a educação de qualidade. Porque seria muito cômodo (e até natural) elas me dizerem que já tinha feito sua parte, já tinham lhe acolhido no Jardim, agora era hora dele ir adiante. Mas não. Fizemos juntas – eu e escola - um parecer e um pedido à SME que ficou em discussão por mais de dois meses. Lutaram junto comigo para ficar com ele mais um ano, apesar dele já ter 6 anos, o que por lei, lhe determinaria ingresso no primeiro ano do Ensino Fundamental. Mas elas acham que Caio pode – e deve – ir para o primeiro ano melhor preparado. E é o que vamos fazer, agora em 2012. Caio vai ter material escolar adaptado, tem metas de conquistas motoras e avanços pedagógicos. Já me puxaram as orelhas que elas vão ME ajudar no desfralde dele, que ele já demonstra há tempos estar pronto para. Isso é parceria de verdade.

Caio com a monitora Carla Tavares e a professora Eliane Souza, na festa de Natal

As aulas reiniciaram agora no início de fevereiro e foi uma beleza! Caio não estranhou nada. Ao contrário, estava estranhando o marasmo das férias! Voltou com a memória plena de todas as rotinas escolares, curtindo cada tarde que passa lá. E eu fico feliz demais de ter deixado o meu preconceito de lado e ter matriculado ele na Escola Municipal de Educação Infantil Vó Corina, no bairro Guajuviras, em Canoas O bairro antes violento que hoje é conhecido como Território de Paz. O lugar onde a igualdade é mais simples. Sempre que tenho a oportunidade de falar com nosso prefeito, Jairo Jorge, digo para ele parabenizar cada funcionário da Vó Corina. Nós, especialmente quando temos um deficiente na família, temos a mania de teorizar muito sobre inclusão. E foi lá na escolinha do subúrbio que eu ouvi a frase que simplifica tudo: “Não é preciso haver inclusão, quando existe amor ao próximo”.

Muro da EMEI Vó Corina - Canoas - RS

Fica a dica para todos os pais e cuidadores. A inclusão existe. Às vezes ela pode estar no lugar que nos parece mais improvável. Mas ela é linda, inconfundível. Não duvidem nunca de que vocês também podem encontrá-la.

2 comentários:

Babi Szücs disse...

Dinha! Que maneira linda de começar o dia, de finalmente começar o ano neste pós carnaval. Que mensagem linda e de esperança. Parabéns a você, que acreditou, e aos profissionais que honram o sistema de educação municipal, mesmo tão desacreditado. Não existe educação sem amor...

Amábile - Mãe de dois disse...

e eu terminei o post aos prantos , isso sim e inclusão
bj