quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A onda da China e as células-tronco

Vou começar me defendendo, porque entendo que minha posição pode gerar muitas controvérsias.

Sou uma grande entusiasta das pesquisas com células-tronco. Vejo nelas uma imensa esperança para milhares de doentes até então incuráveis. Torço profundamente para que o tempo comprove seus inquestionáveis benefícios. Exultante, sei que aqui em Porto Alegre, ao lado da minha cidade, está se formando o primeiro Hospital do Cérebro do país, onde estudos com células-tronco no tratamento da epilepsia estão a todo vapor. Que grande avanço, que benção maravilhosa!

Mas é com receio e até uma certa tristeza que vejo uma avalanche de viagens à China, em busca do tratamento com células-tronco, pipocando por aí. Primeiro na internet. Depois, em jornais locais. Aqui mesmo, entre conhecidos, sei de dois casos de pessoas determinadas a levarem seus filhos ao país asiático, ansiando a cura total.

Acho que o caso da menina Clara, uma linda pernambucaninha de 2 anos, foi o estopim nacional.

Desejo muito que Clara e sua família alcancem o êxito que desejam. De coração. Porque o êxito deles também pode ser uma chance pro meu Caio. E duvido muito que exista um pai ou uma mãe que não sonhe, diariamente, com a cura total e milagrosa para as deficiências do seu filho com paralisia cerebral. Temos bicho carpinteiro, estamos sempre querendo saber as novas técnicas, as terapias mais avançadas, as novidades da neurociência.

Eu não sou diferente. Vejo meu Caio andando, falando. Sonho muito alto. Vejo ele de toga, se formando! Tento ser pé no chão mas, na grande maioria das vezes, meu coração não permite. Então também deposito esperanças gigantes nas possibilidades abertas pelas células-tronco.

Mas se alguém me desse hoje o dinheiro necessário para levar o Caio à China, eu não o levaria.

As experiências com células-tronco são somente isso: experiências. Nada concreto, nada a longo prazo ainda, para que tenhamos a segurança necessária para entregar nossos filhos a elas. Especialistas são cautelosos. Melhoras existem. Acontecem. Mas, em algumas experiências com não-humanos, por exemplo, há relatos de um grande declínio após o período de melhora. Então, é preciso que as experiências com humanos se deem a longo prazo, a fim de verificar todos os seus efeitos - bons ou maus. E ainda não tivemos tempo para isso! Uma outra leva de cientistas defende de que, assim como as células-tronco podem se transformar em qualquer tecido, elas podem também gerar tumores, alguns deles inclusive malignos...

Eu não arriscaria os ganhos que vejo meu Caio tendo nas terapias convencionais. Sim, admito. Na maioria das vezes, essas melhorias são muito mais lentas do que eu desejo, sonho pra ele. Mas, considerando seu quadro neurológico, cada pequena melhora tem um valor incalculável.

Vejo as melhoras da Clarinha e entendo o justificado entusiasmo de seus pais.
Mas ela tem apenas 2 anos. Ainda tem uma longa estrada pela frente. As melhoras que ela apresenta podem ser, sim, resultado do amadurecimento cerebral, da fisioterapia, do tampão do olho... e não necessariamente das células-tronco.

Depois, muito se fala da falta de ética médica na China. Juro que não quero passar por invejosa ou ressentida. Mas eu, que luto para que o erro médico que causou a paralisia do Caio seja indenizado, não aceitaria fazer um tratamento pra ele sem ter ciência da origem exata dessas células. Eu só levaria o Caio à China se o caso dele fosse aboslutamente irremediável, com grande sofrimento e nenhuma expectativa de melhora. Só por desespero mesmo. Mas não é o que acontece.

Entendam que não estou criticando quem foi à China. Mas acho que é preciso cautela. É preciso pesquisar muito, ouvir muitas opiniões, pesar bem os possíveis fatores envolvidos... Sei bem o quanto nossa ansiedade para ver bem aqueles que tanto amamos pode ser tornar perigosa. Então a palavra é somente essa: cautela. Mais prudência e se atirar menos na onda da moda.

Recentemente crianças começaram a ser convocadas para participar de testes pro tratamento da epilepsia com células-tronco em Porto Alegre. Titubiei. Mas não inscrevi o Caio. Posso estar sendo covarde, mas hoje eu não troco o certo pelo duvidoso. Ainda. Espero que Deus, o tempo, a evolução científica, me provem o contrário daqui uns anos. Ainda assim, tem futuro pra gente. E enquanto ele não chega, eu fico aqui, assistindo e torcendo pra que eu esteja errada e dê tudo muito certo pra quem consegue ir pra China. E pra que um dia, a gente não precise ir tão longe em busca de melhoras significativas...
;)

Quatro anos de terapia três vezes por semana... Muito esforço por parte do Caíto... Mas ele tá indo. E a nossa esperança ali, do ladinho, sempre....



Um comentário:

Alline disse...

Olá Dinha, é a primeira vez que visito o seu blog e o seu post sobre a onda de células-tronco e a China veio em um momento muito apropriado pra mim. Compartilho da mesma opnião que você, apesar de não estar na posição (tão particular) de mãe. Estou apenas na posição de "meio mãe" (rs), pois me considermo "meio mãe" do meu primo Vitor, de 9 anos, que tem PC. E, em dezembro, iremos pra China! Foi uma escolha feita por seus pais (principalmente pela mãe) e eu irei acompanhá-los. Confesso que estou com medo e tentando ter fé de que tudo vai dar certo...