quarta-feira, 20 de maio de 2015

Uma noite de sonho!

Sempre sonhei em ter uma festa onde eu fosse mais uma "convidada". Que passado a organização, no dia, eu só iria recepcionar meus convidados, conversar e curtir o amor que meus filhos recebem. 
Pois então... cuidado com o que desejas... pois podes conseguir.
Os meninos ganharam uma festa lindíssima, mais do que eu poderia sonhar, de um amigo nosso e sua empresa... E a velha ajuda da família e amigos rolou nas lembrancinhas, guloseimas, vaquinha para a fotógrafa... Os dois curtiram horrores e nós fomos presenteados com o maior tesouro do mundo - foi uma noite em que recebemos muito carinho e reconhecimento.
Quero agradecer a todos que fizeram parte deste sonho e se esforçaram para que ele fosse como foi: perfeito! 
Eu, que sempre achei que sou uma pessoa que sabe agradecer, dizendo "muito obrigada" a todos, aprendo cada vez mais o real significado de uma palavra que me parece ainda maior: GRATIDÃO. 
Gratidão à vida e ao Universo, pelos preciosos amigos que ao longo dela temos cultivado. O caminho, sem sombra de dúvidas, fica muito mais bonito com a presença e o amor de vocês!



































domingo, 17 de maio de 2015

Para Caio


Para ti, meu filho, as palavras nos faltam... 
Busquei músicas que pudessem traduzir um pouco do que tu nos presenteia ao longo destes 10 anos.

"Prá renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim, sem me avisar
Prá acelerar um coração
Que já bate pouco
De tanto procurar por outro
Anda cansado
Mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação
Solidão nunca mais

Você caiu do céu
Um anjo lindo que apareceu
Com olhos de cristal
Me enfeitiçou
Eu nunca vi nada igual

De repente
Você surgiu na minha frente
Luz cintilante
Estrela em forma de gente"

(Frisson - Tunai)



"Palavras que foram dadas com tom de amanhecer
Levo a vida, todo esse amor contigo
Se o destino quis então deixar a fruta no pé amadurecer
O tempo passa e cada dia reascende a nossa história

Levo a vida, ainda toco o barco
Cê sabe o jeito que ainda me acho
Deixo de lado toda a incerteza e sigo o coração

Eu acredito no amor
Em busca da fé eu vou"

(Em Busca da Fé - Chimarruts)

Para Yuri

Como tu já é um rapaz, a música tu escolheu.
Mas a seleção de fotos ficou por minha conta e foi uma surpresa pra ti.
Lindo desde sempre. 
Quisera eu que as pessoas pudessem ver teu coração, ainda mais lindo.
Feliz aniversário, filho! Eu te amo!



17 de maio - 2000 - 2005 - 2015

E de repente, não tenho mais crianças em casa.
Somente um rapaz de 15 anos e um quase pré-adolescente de 10.
O tempo voou. E esse meu amor só cresceu junto - ou ainda mais que vocês, meus filhos!
Gratidão por terem me escolhido para viver essa aventura fantástica junto com vocês.
Feliz Aniversário! Que sejam felizes todos os seus dias!
Amo-os infinitamente!










quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

10 anos de blog

Então, não é só Caio que completa 10 anos.
Junto com ele, o Meus Frutos aniversaria... porque, inclusive, ele tinha outro nome e propósito antes de eu engravidar de Caio, antes dele nascer.
Sei que as postagens não são mais na mesma frequência, até porque, afinal a deficiência hoje é aceita (sim, aceita. Houve, naturalmente, o período de luto e negação) como parte do nosso mundo e as surpresas se tornaram menores ou menos frequentes mesmo. 
Não são raras as vezes em que penso que já não tenho mais nada a dizer por aqui.
Mas justamente por Caio seguir crescendo é que vislumbro o que ainda vai vir, em termos de aprendizado e talvez mesmo de discussão com a sociedade. 
Noutras, acho que já deu. 
Enfim... reflexões para esta década de blog, porque ainda recebo muito carinho - sim de leitores que se tornaram amigos e nos dedicam seu afeto. Mas ainda me surpreende, me comove e me deixa muito gratificada as mensagens de novos leitores, que chegam aqui via mecanismos estranhos do Mr. Google ou de leitores que - mesmo não sendo, por exemplo, amigos de convívio diário do Facebook - voltam sempre para buscar notícias nossas...
Coloco os exemplo de Diego, leitor recente, e de Cecília... "velha amiga".




E você, que nos lê agora?
O que te trouxe até aqui? O que te faz voltar?
Com toda gratidão pelo carinho que sempre recebemos, não estou à procura de elogios. Mas gostaria muito de saber o que tem te guiado até os Meus Frutos.
Pode deixar um comentário ou enviar email para cr.lacerda@ig.com.br
Desde já, obrigada aos que responderem, aos que leem e aos que permanecem conosco por estes 10 anos.
Gratidão!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Uma década de Caio!

2015 é um ano marcante. Comemoramos uma década de Caio.
10 anos. 520 semanas. 3652 dias (considerando os anos bissextos). 
Para um menino que, diziam os médicos, não viveria 5 dias.
Um menino cujos prognósticos foram os piores.
Cada vez menos olho para o que foi, para o que poderia (ou eu achava que deveria) ter sido e olho para o que tenho. 
Um filho lindo. Um menino doce, alegre, amoroso, valente. Um filho perfeito.

10 anos e às vezes parece que foi ontem. 
10 anos e parece uma eternidade.
Confesso que volta e meia bate um medinho. Como darei conta de um filho deficiente adolescente? Adulto? Como carregarei ele por aí? 
Mas aí lembro de medos muito maiores que já tive. O dele não sobreviver. O de ser vegetativo. O de viver em sofrimento. Mas como conviver com Caio e não entender que todos estes medos foram vencidos?!


Se durante muito tempo me questionei, me revoltei, neguei sua deficiência; hoje sei que - mais do que um destino talhado para o meu crescimento pessoal e espiritual - esta é apenas uma das características do ser maravilhoso que é este menino. Uma pequeníssima dentre suas várias, imensas e lindas características.

Nada comparável ao valor de seu sorriso sempre escancarado ao mundo. Nem tão profundo quanto seus encantadores olhos de jabuticaba, redondos e curiosos. Ou mais apaixonante do que sua doçura em acarinhar rostos, cabelos e viver mandando beijos. O valor e a beleza do meu filho não está em ele ser deficiente e por isso, para alguns, digno de comiseração. O fascínio de conviver com Caio é que ele ensina - como sempre reforço, a quem tiver o coração aberto para aprender - a viver intensamente. Aparentemente tão frágil, ele é um gigante em desbravar a vida. 

As dores existem. As dificuldades. O preconceito. O cansaço. Às vezes, a incompreensão. E isso - aprendi - não tem relação com sua deficiência. É do ser humano. Todos sofremos - física e emocionalmente. Todos vivemos os piores dias, aqueles em que nos parece que somente respirar já é uma imensa dificuldade.  Todos, algum dia, em algum grau, fomos pré-julgados por uma aparência ou um pré-conceito, alheios à nossa essência. E levanta a mão aí, quem nunca se sentiu cansado... de nada e de tudo ao mesmo tempo...

Mas quero ver quem aí, conserva o sorriso acima de tudo! A amorosidade. A curiosidade em desbravar o que tem além. A alegria em viver!

Caio o faz. 
Há 10 anos.
E o seguirá fazendo. 
Por quantos mais Deus nos honrar.

Para 2015, sigo aquele mantra de sonhar tudo para ele.
Sonho especificamente que ele siga vencendo suas batalhas diárias. Não somente porque me faria feliz, como sua mãe e parceira de luta. Mas porque, acima de tudo, ele é merecedor.
Sonho em fazer - quem sabe - uma grande festa em maio para celebrar essa vida tão preciosa. 
Sonho...

Caio me ensinou... como diz a música... ele é daquelas pessoinhas raras para as quais é preciso ter sonho sempre... com sua estranha mania de ter fé na vida.
Gratidão, filho, por tua vida em minha vida!
Feliz 2015, feliz 10 anos!
Felicidade... sempre!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Em 2014 teve...

2014 foi um ano intenso. E o qualifico como o ano do meu Renascimento. Forte afirmar isso, eu sei. Mas foi. Porque teve...




Calor danado sem praia. Medo de ficar sozinha. Reflexão. Ensaio sensual. Cumplicidade com minha mãe. Círculos Femininos. Amadurecimento. Muita maquiagem. Choro. Whatsapp. Medão. Vaidade. Escolhas. Espiritualidade e intuição. Insônia. Amor próprio. Muitas brigas. Um ano de Cuevas Medek Exercise. Novas amizades valiosas. Mantras. Amizades antigas fortalecidas. Regressão a vidas passadas. Tempo só pra mim. Uma Tarde Especial no Parque. Confidências. Show de rock. Campanha eleitoral. Entendimento. Valentina's Bar. Coragem. Amor clandestino. Dinha Doces. Quatro novas tatuagens. Facebook bombando. Litros de lágrimas. Várias jantinhas e bebidinhas cazamigas. Coluna estropiada. Sonhos. Unhas roídas. Chácara Kern. Tesão. Selfies. Curso de Reiki. Mais de oito meses sem crise convulsiva. Aceitação. Hidroterapia. Agenda atolada de deveres. Balada. Instagram. Refluxo. Projetos retomados. Coleção de esmaltes ampliada. Meditação. Cansaço. Flerte. Acupuntura. Filho aprovado para o terceiro ano do Ensino Fundamental. Cabelos soltos. Ansiedade. Filho se formando no Ensino Fundamental. Decisão. Libertação. Família. Recomeço. Fé.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Ele, que eu amo tanto...

Das coisas boas que essa virada do ano trouxe, foi a formatura de Yuri. Sim, meu primeiro bebê, já é um aluno qualificado ao Ensino Médio! Quando este blog nasceu - em função da chegada de Caio - Yuri ainda estava na Educação Infantil. Hoje, olho pra frente e vejo que daqui a 3 anos, posso ter um universitário em casa. Por onde mesmo andei, enquanto essa criança cresceu?

Algumas pessoas comentam que vivo em função de Caio. E que só publico sobre Caio. Mas quem convive conosco sabe o amor, o orgulho e, principalmente, a ADMIRAÇÃO que nutro por Yuri. Ele é meu grande parceiro de vida, não tenho dúvidas. É meu amigo. É meu fã, o que me deixa um tanto envaidecida por vezes. É um menino de um coração muito nobre, sensível e humanitário. 

Certa vez, uma psicóloga me fez ver que, se toda criança "perde" com a chegada de um irmão, Yuri perdeu muito mais. Bem além de ter que dividir tempo e atenção dos pais e da família com o novo membro. Perdeu a expectativa do irmão que ia jogar bola com ele, coisa que nunca pôde acontecer. Perdeu a urgência para todos os seus assuntos frente a um irmão com tantas intercorrências de saúde. Perdeu o dia do seu aniversário!!! Símbolo quase exclusivo de uma pessoa, o dia do seu nascimento, até isso Yuri teve que dividir...

E as raríssimas vezes em que houve revolta, posso contar nos dedos de uma única mão, foi mais do que compreensível. Ele sempre conseguiu expressar. Mas muito mais do que isso, cresce expressando o amor, a aceitação por este irmão que a vida lhe deu. E tocou sua vidinha com empenho...

Bolsista integral de uma escola particular, essa não foi uma caminhada fácil para nós. Quando nos mudamos, a van escolar nem entrava em nosso bairro e Yuri precisava caminhar 8 quadras para pegá-la. E lá ele se foi... correndo com as perninhas ainda curtinhas de uma criança de 6 para 7 anos, sob o sol do meio-dia indo acompanhar seus colegas. Um exemplo, apenas. Mas os obstáculos existiram e foram vários.

E tudo isso, meu filhão deixou pra trás agora dia 19. Venceu!
Como reafirmo tantas vezes, caminha para se tornar um grande homem - por seu caráter e seus valores. E me enche de orgulho e amor por sua simples existência. Sempre lhe agradeço por ter escolhido para ser sua mãe. 
















Parabéns, Yuri!
Eu sempre digo que acordo para vencer. 
Tu nasceu pra isso, filho, tenho certeza.
Te amo!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Das aprendizagens de 2014 (III) - eu sou uma bruxa!

2014 vai entrar pra (minha) história.
Eu diria que foi um ano transformador. Em tudo. Por dentro. Por fora. Do avesso. E, principalmente, na alma.
Foi quando decidi cuidar mais de mim e me olhar como prioridade, como já escrevi agorinha há pouco. E foi neste processo, que me (re)conheci por dentro.

Levando à sério os cuidados comigo, vivenciei fortes experiências com o reiki e a psicoterapia reencarnacionista. Vivi a magia e  força dos Círculos do Sagrado Feminino. Conhecendo minhas outras vidas, pude entender o tanto de mim. E pude começar a transformar alguns padrões de comportamento que me pareciam imutáveis. Me conectei de forma cada vez mais intensa e mágica ao Universo, entendendo sua energia, seus sinais, sua coerência (Está tudo certo! Ô lição valiosa do ano que está indo embora, que espero nunca mais esquecer).



Vou aceitando quem sou e com isso a intuição que sempre tive tão aflorada e da qual sempre tive tanto medo. Medo de ver algo ruim que não poderia mudar... E daí, quando entendo que nada é verdadeiramente ruim, que tudo vem para nos transformar... e que absolutamente nada do que nos está destinado pode ser alterado... eu percebo... está tudo certo! (Mais uma vez!)

Em outubro, recebi mais uma resposta grandiosa para tudo o que vivi intensamente em 2014. Fiz o curso de formação em Reiki I e II. Sempre com receio de "não dar conta", de não estar apta... E o Universo, esse lindo, sambou na minha cara com sua resposta tão veemente.



Agorinha, na finaleira do ano, mais sinais de que este aprendizado é só o começo de um caminho que se abre com toda a sua força e verdade. Que só falta eu assumir isso para meu próprio coração. Me conecto com o chão pisando na grama. Respiro profundamente o cheiro do mato. Semeio, planto, danço na chuva. E sim, sei que posso ver, sentir e vibrar no ontem, no hoje, no amanhã. E que é por aí que serei mais feliz, fazendo diferença em minha existência e em outras, com humildade e amor. Para 2015, sim, eu aceito. Assumo: me descobri bruxa. Não que esta seja uma estrada mais fácil. Mas é vibrante, enriquecedora, mágica. Como a vida deve ser. E agradeço ao Universo por esta consciência!




domingo, 14 de dezembro de 2014

Dos aprendizados de 2014 (II) - eu em primeiro lugar

Em 2014, mais do nunca, eu me amei, me descobri, me permiti. Mudanças profundas para quem sempre se achou vítima do mundo, inferior, incapaz... Em 2014, eu tive certeza de que não sou. E, principalmente, de quem sou - e aprendi a olhar dia a dia, para este ser com mais amor e complacência.

Escolhi com quem queria estar, aonde queria ir, o que queria fazer. Priorizei a minha alegria, o que me fazia bem, o que meu coração pedia. Gastei tempo e dinheiro comigo mesma. Satisfiz minha vaidade, meu prazer, minha carência afetiva, minha gula. Desisti de ser a Cláudia que me parecia ideal e investi em ser a Cláudia que sei que sou. E valeu muito à pena.

Experienciei na prática que só posso ofertar o melhor de mim aos outros, quando, antes, estou interiormente repleta deste melhor - que é estar em paz com cada uma das minhas escolhas (inclusive e principalmente, as mais difíceis). 

Como passei uma vida inteira sendo meu pior algoz, não foi um resultado fácil de se chegar. É uma trajetória percorrida com paciência, um passo de cada vez. Pensava nos meus filhos, nos momentos em que deixei de ser mãe, para ser somente eu - primeiro indivíduo e mulher. E vivi a verdade de que sim, quando eu sou uma mulher mais feliz, trago em mim as melhores ferramentas para ser uma mãe melhor, a mãe que eles merecem e precisam, porque o tempo que lhes doo é com todo o meu coração - feliz e leve por não fazê-lo por obrigação, mas pelo mais puro amor. Cuidando primeiro de mim para poder cuidar do outro. Amando e aceitando a mim, para poder aceitar e amar profundamente o outro.

Yuri cresce e se torna um homem e é meu grande parceiro de vida. Caio cresce igualmente, explorando o mundo e mostrando cada vez mais suas capacidades. E eu cresci - aqui dentro, num lugar onde só eu posso enxergar, mas que transborda aos olhos de quem percebe a pessoa segura e em paz que estou me tornando. 



Para 2015, seguem as lutas, os aprendizados. Virão os dias mais cinzentos, é certo, faz parte. Mas eles encontrarão uma mulher sem o menor medo de encará-los porque sabe que dá conta; porque sabe dar valor e peso devido a cada um dos acontecimentos da vida; e principalmente, sabe que prioridade mesmo é ser feliz. Esta é a nossa missão. E é por saber disso que tenho a convicção de que o melhor ainda está por vir. 

Assim seja!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dos aprendizados de 2014 (I) - as diversas formas de lutar

Hoje, numa conversa com minha terapeuta, iniciei uma retrospectiva do meu ano de 2014. Logo a seguir, fui para um evento sobre Educação Inclusiva, a convite da Secretaria Municipal de Educação de Canoas. E estes dois fatos juntos me fizeram refletir – coisa que eu já vinha fazendo – sobre minhas ações, minhas lutas pela inclusão e acessibilidade.

Num primeiro momento, acho que fui mais “fraca” do que nos anos anteriores. Menos atuante. Tenho a impressão que comprei menos brigas, empunhei menos bandeiras. Não fiz postagens e deixei passar batido o dia do deficiente, da paralisia cerebral, da epilepsia... Mas aí, veio a revelação...

Continuo acreditando que informação é o caminho para que o preconceito diminua, as barreiras sejam quebradas e um futuro mais igualitário possa ser construído. Porém, pude perceber, que eu segui lutando. Do modo mais realista possível: vivendo.

Ser mãe de uma criança com deficiência é a minha realidade desde que Caio nasceu. E aí, eu que luto tanto para que ele seja visto primeiramente por sua infância, por sua individualidade, antes das próprias patologias, consegui fazer isso na prática! Em 2014, fomos à escola, às terapias de reabilitação, ao cinema, ao parquinho, na casa das avós, às festinhas de família e amigos... Em 2014, vivemos! A nossa rotina, as nossas atividades. Sem esbravejar tanto por isso,  pois é – afinal – a nossa rotina, a nossa realidade, o nosso destino.

Me parece que pode haver uma tênue linha entre aceitar e acomodar. Cada vez mais eu aceito. Sigo lutando por dias cada vez melhores para meu filho. E eles têm vindo. No seu ritmo. E no tempo que nos estava destinado. Ele inicia um processo lento, porém muito exitoso de alfabetização. Interage cada vez melhor, se faz entender pelos outros. Neurologicamente tem dado conta de um cotidiano puxado e atarefado e fechamos mais de 8 meses sem crise convulsiva, com a diminuição da medicação a um terço do usual nos últimos 2 anos.  Motoramente tem progressos significativos, adquirindo um controle cada vez maior de seu corpo e postura.

E eu vejo que estes são os resultados de uma luta travada com amor. De uma vida que não precisa ser levada com uma faca em punho todos os dias! Se estou vendo só flores? Conte-me você, pessoa “normal”, sem deficiência ou patologia crônica, sobre nunca ser vítima de preconceito, injustiça, mau atendimento em serviços públicos ou privados ou sobre como viver sem problemas rotineiros... Percebem? A vida não é bolinho para ninguém, os desafios estão aí para todos. Alguns em maior grau, outros em menor. Mas para todos. Igualitariamente. Como o mundo que idealizo...


Claro que, realisticamente, meu filho faz parte de um segmento da sociedade muitas vezes menosprezado e estigmatizado. Alguns caminhos que para muitos é tão natural, para ele sempre será mais difícil. E eu não estou com isso, erguendo a bandeira branca ao sistema. Certamente haverão os dias em que será preciso erguer a voz, tirar a peixeira da cintura, derramar lágrimas de sangue. Levante a mão aí quem nunca... Mas a gente não veio neste mundo a passeio. Não mesmo. E eu tenho descoberto que é muito mais legal quando a gente consegue lutar com um sorriso nos lábios. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

As redes sociais e os diferentes posicionamentos

Acho que tudo na vida é causa e efeito. Sabemos disso. Eu ajo, um outro reage. É assim que se estabelecem as relações humanas: ao meu sorriso o outro reagirá com simpatia e podemos construir uma relação de afeto; ao meu empenho o outro reagirá com aprovação e podemos construir uma saudável relação profissional; e por aí vai. A internet e as redes sociais expõem isso de maneira mais contundente. E nos mostra que não somos seres tão sociáveis como queremos acreditar.

Li ontem a notícia que o ator José de Abreu excluiu sua conta de uma destas redes, para evitar o convívio (ou confronto) com o jornalista Diogo Mainardi, relação essa que já vem sendo conturbada desde os idos de 2005, segundo fontes. Mainardi acusa Abreu de apoiar determinadas chapas políticas em troca de favorecimento no financiamento de seus espetáculos; o ator rebateu que o jornalista é um canalha que explorou a própria doença do filho num livro. Como o que o filho de Diogo tem é paralisia cerebral, como também pretendo escrever um livro, talvez a notícia tenha me atingido em especial, é verdade. Mas acho que é uma reflexão válida para todos nós, enquanto pessoas que se acham incrivelmente conectadas e socializadas. Embuste.

Entre minhas polêmicas opiniões pessoais, sou do time que acha que quem vai na chuva é pra se molhar. Ser uma figura pública - independente se artista, político, comunicador - é saber-se alvo de observações e julgamentos constantes. Eu mesma, com este blog, tenho colocado a cara à tapa há 9 anos; nem sempre recebo só carinho e aprovação nos comentários ou emails. Muito antes pelo contrário, já recebi algumas mensagens bem pesadas, com críticas agressivas e nada construtivas. O que fiz com elas? Raramente as expus ou respondi publicamente. Porque acho que faz parte do ser humano julgar o outro - vejam bem: não digo se julgar é certo ou errado, é inerente, todos fazemos. As diferenças em como as relações se conduzem quando eu faço, quando tu criticas, quando eu reajo, é a proporção que se dá ao outro. Eu, Cláudia, julgo muito, julgo o tempo todo. Mas não costumo expôr meu veredito, a não ser que seja uma pessoa do meu círculo mais íntimo, a quem eu acho que minha opinião possa agregar de alguma forma. Ou porque é importante para manter essa nossa relação num patamar que qualifico com saudável.

E ainda assim, dentro desta minha teórica ordenação, eu acho que há limites. Mainardi é ácido. Sempre foi, nunca mudará. Não tem papas na língua nem na ponta dos dedos. Mainardi foi ácido em seu maravilhoso livro A Queda, onde conta a história de seu filho Tito, paralisado cerebral devido a um grotesco erro médico. Aliás, reverencio este livro. Me libertou de muitos sentimentos de culpa em relação ao meu Caio. Eu não preciso amar tudo, eu posso questionar muito, posso me debater ou posso encarar sem floreios - isso não tira a incondicionalidade do meu amor, tal qual o que o pai de Tito lhe dedica. José de Abreu, artista, imagino quantas críticas recebeu ao longo de sua carreira. No que a opinião do jornalista lhe alcança tanto? A meu ver, Diogo exerce o seu papel de crítico político - e aí, não há diplomacia mesmo (mais uma vez reforço: não estou dizendo que está certo, simplesmente é). Mas, usar uma história tão pessoal, uma história que nem é de Diogo, mas de Tito... aí acho que o ator errou feio a mão.

Diogo expõe o filho. Eu exponho Caio. Não sabemos se eles concordam com isso, mas sabemos da importância de que nossas histórias sejam compartilhadas. Num primeiro momento por questões pessoais - se gosto de escrever, posso sentir essa necessidade urgente de escrever sobre meus sentimentos mais profundos de dor, de alegria, de esperança, de conformidade. E escrevo porque partilhar essa história é dar luz a uma minoria: a deficiência. Quando nos tornamos pais de uma criança deficiente, acho que só existem dois caminhos: ou se nega esta missão, ou se abraça uma causa inteira. Do modo que for, acho que Diogo e eu, optamos pela segunda opção.

Dou a cara à tapa e, claro, sei que haverão os julgamentos. Mas manerem. Só eu sei "a dor e a delícia de ser o que é". Por mais que eu escreva. Por mais que eu tente compartilhar. Não falem o que não sabem, o que não experimentam na carne e na alma. Não use a deficiência como sendo um castigo, uma infelicidade, um fardo. Não estigmatize o que já o é por demais, sem conhecimento de causa. Não seja superficial com o que teus olhos vêem, não seja conivente com o que é convencionado - teus olhos te traem, a convenção pode não ser espelho da realidade. 

Abreu pode ser um vendido, um interesseiro, um canastrão, um nojento, como Mainardi qualificou. Mainardi pode ser um escroto, um canalha, um maléfico, como publicou Abreu. Não estou julgando o mérito de nenhum deles. Mas deixem Tito em paz, não o envolvam. 

Estar em uma rede social é estar aberto a diferentes - e portanto contrários - posicionamentos. O problema é que a grande maioria só é social enquanto é curtido, é linkado, é retuitado. Aceite o ponto de vista do outro. Ainda que divergente do teu. Há sempre escolhas; podes tentá-lo fazer mudar de opinião, na base de uma civilizada troca de ideias. Ou podes deixar pra lá: é a opinião dele, é o que ele sabe, é o que ele tem a oferecer. E como diz aquele selinho amplamente compartilhado por aí: "Me julgue do jeito que você quiser. Afinal a opinião é sua, a realidade é minha". Mas, por favor, guardem os facões. Não acrescenta nadinha. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Sonho ou meta?

Desde muito pequena, carrego comigo muitos sonhos. Ter filhos era um deles. Escrever um livro é outro, acalentado desde a mais tenra idade. É inerente ao ser humano. Mas, depois do nascimento de Caio, sonho, meta, objetivo, tornaram-se palavras com um peso e um significado diferentes, bem mais profundos.

Diagnosticada a paralisia cerebral de meu filho, eu estabeleci como meta que iria dedicar o melhor de mim e dos meus dias para lhe oportunizar todas as chances de reabilitação possíveis. E ainda que eu tenha plena consciência da extensão de sua paralisia, costumo dizer que sonho grande para ele. Sonho vê-lo andando. Sonho vê-lo cursando uma faculdade.

Coloquei as palavras meta e sonho, propositadamente, em seus contextos mais clássicos. Meta, consta no dicionário, é alvo. Algo que se deseja atingir. Objetivo. Já sonho está apresentado como: Aquilo com que se sonha. Fantasia ou ilusão. Desejo. Aspiração.

Ou seja: meta, objetivo, são racionais e plausíveis. Sonhos são sentimentalismos impossíveis. Será mesmo?

A meu ver, são praticamente sinônimos, quando a ambos dedicamos nossos esforços. Sim, estabeleci a meta de dedicar o melhor de mim para as atividades de reabilitação de Caio. E assim tem sido, com pesquisas, conversas com profissionais, outras mães. E vamos construindo nossa história de superação frente aos piores prognósticos médicos. Sim, sonho em vê-lo andando e cursando uma faculdade. E para tanto, dedico a estes sonhos, minha completa entrega e dedicação, levando Caio para suas atividades, por mais difícil que às vezes seja - e acreditem, na maioria das vezes é. Acho que se existe diferença, talvez esteja na paixão.

Posso ter uma meta na vida e ser completamente apaixonada pelos caminhos que talvez me conduzam até ela. Mas, sim, os sonhos são aqueles planos que tomam conta de nossa alma até mesmo quando dormimos. Sonhos são aqueles objetivos que muitas vezes renegam a realidade imposta em nome de um idealismo chamado "eu vou conseguir". A meta é planejada; o sonho é impulsivo. A meta é coerente. O sonho é visceral.

O romantismo do sonho reside de superar o tempo, a ansiedade, os planos e sobreviver unicamente da esperança de deixar de ser sonho e se tornar realidade. Ainda que ele seja arduamente trabalhado. Tal como uma meta.

Passados nove anos do diagnóstico da paralisia cerebral do Caio e seu imenso comprometimento, ouvindo pérolas como "a senhora não deve esperar NADA deste menino" ou "ele NUNCA vai ter NENHUM tipo de desenvolvimento". Alternando meus momentos de exaustão, medo e descrença com aqueles da mais forte confiança, perseverança e energia. 

A resposta começa a surgir. E eu digo: como é bom sonhar. Como é bom lutar por nossos sonhos. Como é maravilhoso entregar-se apaixonadamente a um objetivo de vida e fazer dele a inspiração de todos os nossos dias. 

Não importa o tamanho do sonho. Não há sonho pequeno ou demasiadamente grande.
Sonhos são sempre sonhos.
Sonhos nos levam mais longe do que a razão nos diz ser possível.
Sonhos nos elevam à nossa capacidade máxima de fé, coragem e realização.
Eu ouso dizer que só quem sonha vive a vida em sua verdadeira intensidade e propósito.
Tente. Vale muito à pena.








quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Indivíduos, andorinhas e coletividade

Eu sou uma idealista por natureza. Às vezes me pergunto se tal idealismo é fruto de imaturidade, inocência ou o quê. Mas a verdade é que ainda acredito que atitudes individuais podem sempre ser o começo de uma mudança maior. O que EU faço pode influenciar ou, no mínimo, trazer um outro olhar a determinado assunto entre minhas relações sociais e afetivas, entre meus vizinhos, na minha sociedade como um todo - por que não?

E sem falsa modéstia, sou também uma obstinada. Quando eu quero, EU QUERO! 

Nas minhas pesquisas intermináveis na web, em redes sociais, nos centros de reabilitação que frequento, entre os profissionais que atendem o Caio, o Livox - software de comunicação alternativa em tablets era uma meta: tê-lo para testá-lo com meu filho. No final do ano passado, entrei em contato com Carlos Pereira, o desenvolvedor do aplicativo e tentei trazê-lo para o Rio Grande do Sul. Infelizmente não tivemos apoio do poder público nem de empresas privadas, a mesma acabou não se realizando. Mas eu guardei esse desejo ali, num cantinho do meu coração. Não no compartimento do "Desista" que, graças, o meu é bem pequenino, muito poucas coisas, pessoas ou situações estão armazenadas nele. Mas no compartimento do "A Realizar".

Pois o Universo conspirou, a equipe do Livox vem para o RS e Carlos Pereira me contatou. Eu corri e pedi apoio da direção da escola do Caio, pois temos uma luta irmã pela inclusão e acessibilidade. Então, teremos nossa palestra dia 25, agora. Entrada franca, acho que conseguiremos mobilizar um bom público. O que eu desejo com isso? Que um grande número de pessoas possam conhecer as possibilidades desse software e os benefícios que podem trazer ao seu filho, familiar ou conhecido - com deficiência ou não. Que as secretarias de Educação possam conhecer quais ferramentas são disponibilizadas a favor do educador, não só para crianças com deficiência, mas enquanto instrumento de apoio para a prática pedagógica interessante, moderna e interativa. Que os profissionais de reabilitação vejam mais de perto com ela funciona. Não é um benefício para o meu filho; é para a coletividade. Conhecimento e informação são sempre tesouros. E coisa boa quando conseguimos compartilhar. Fico feliz do meu sonho individual poder se tornar, quem sabe, uma luz no fim do túnel para algumas famílias, um importante instrumento de ensino para alguns profissionais de educação.


E aí, pensando em pequenas iniciativas que nascem a partir de uma meta solitária ou do desejo de um único indivíduo em fazer diferente - e fazer a diferença, apresento-lhes o projeto Uma Tarde Especial no Parque, da fotógrafa Tamara Wagner

O que Tamara queria? Reunir as crianças ditas especiais - com alguma deficiência ou limitação - num parque para que pudessem brincar, para que suas famílias pudessem se conhecer e trocar experiências e para que fossem fotografadas em sua essência - brincando, se divertindo, sendo felizes. Exata e igualmente a qualquer criança do mundo!

O evento aconteceu dia 03/08, no Parque Germânia, em Porto Alegre. E, como se previa, foi lindo de ver e de viver. 













O projeto de Tamara esbarrou em algumas dificuldades iniciais de local e tudo o mais. Não foi só marcar, ir e fazer. Ela trabalhou por ele. Investiu seu tempo, dedicação, seu coração. E aconteceu.

Esses tempos uma pessoa, entre minhas amizades, criticou aquele idealismo que comentei láá em cima. Disse que de nada adianta eu sonhar com um mundo melhor, mais justo, pois uma andorinha só não faz verão. Discordo. As andorinhas nunca são uma só. Podem estar dispersas. Mas quando se unem, anunciam a chegada do calor aos nossos dias. Assim também são os sonhos individuais. Muito raramente batem num só coração. E quando estes corações sonhadores entram no mesmo compasso... aí uma nova realidade, transformada, se faz brilhar. O que era meu passa a ser nosso. O indivíduo vira coletivo. E sim, o amanhã já se fará diferente.

"SEU MUNDO MUDA, QUANDO VOCÊ MUDA."

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou a Copa. Que venham as Eleições.

Eu ia escrever este texto o Brasil ganhando ou perdendo a Copa.

Perdeu feio. Acho que, para o que eu quero dizer, é até melhor.
Eu fui contra a realização da Copa. Acho sim que foi um desperdício de dinheiro público, uma roubalheira descarada, mais uma oportunidade para o favorecimento ilícito de um seleto grupo de políticos e empresários. Mas a partir do momento em que a Copa ficou sacramentada em nosso país, acho sim que nosso dever, como anfitriões, era fazer o melhor. Era receber civilizadamente, era torcer para fazermos bonito porque não é a derrota da Seleção que vai expor ao mundo as graves mazelas do Brasil. Delas sabemos muito bem. E delas, somos NÓS que temos que dar conta.

Eu amo meu país. Fico realmente emocionada com estes comerciais que conclamam o povo a ser unir em torno deste amor. Mas eu também me envergonho do país que NÓS estamos construindo. Conheço de pertinho seus defeitos, sua ineficiência, sua desigualdade. Eu, particularmente, como mãe de uma criança com deficiência, sei muito bem quão desumano, burocrático, inócuo e injusto ele pode ser. Só que no fundo, a culpa é toda nossa. Sempre é.

Somos os autores de nossa própria história. E fortalecemos tudo de ruim que há em nossa cidade, em nosso estado, quando envolvemos nossas atitudes com o jeitinho brasileiro e nos orgulhamos de levar vantagem. Quando furamos a fila. Quando conseguimos um benefício à frente de outrem pelo famoso Q.I. (quem indica). E, principalmente, quando seguimos delegando o poder a quem não está sabendo nos representar. A grande manifestação por toda a nossa insatisfação, replicam nas redes sociais, deve vir nas eleições de outubro. Concordo. E te convido a esta reflexão.

O governo está ruim? Muda teu voto, escolhe outro candidato, outro partido. É teu direito. Mais do que isso: é teu dever! Mas de nada adianta ser um alienado fora do período eleitoral. Ser politizado não é questão de formação, de status social ou acadêmico. É conscientização e participação. Devemos ficar de olho sempre. Em quem elegemos. No que estão fazendo com nosso dinheiro, em nosso nome. Devemos denunciar sempre que formos vítima de alguma injustiça – seja ela em que esfera for. Devemos lutar por nossos direitos – por mais básicos que eles sejam ou por mais árdua que pareça essa luta. Não podemos ficar dois ou quatro anos acomodados e aí, seis meses antes de retornar às urnas, começar a bradar que está tudo errado – como se fôssemos técnicos palpiteiros apenas em época de Copa do Mundo. A vigilância deve ser constante. Nossa atuação cidadã também.


Queimar bandeira (o jogo nem terminou enquanto escrevo e já tá rolando foto disso no Facebook), vaiar jogadores, fazer quebra-quebra não vai acrescentar nada! O circo não se resume à Copa, nossa responsabilidade não se resume a anos eleitorais. Que possamos usar nossa energia – seja ela de amor ao País, de tristeza pela Copa perdida ou de indignação ao que alguns chamam de circo armado – para escrever essa história como tem que ser. Com orgulho de ser brasileiro porque estamos sabendo fazer nossa parte com consciência e responsabilidade – nas urnas e todos os dias, como pessoas de bem.  

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Eu perdi o Bolsa Família

Caio está com 9 anos. E ainda que desde seu primeiro ano de vida, eu ouvisse sobre a possibilidade de receber um benefício assistencial, ele só passou a ter direito a ele aos cinco anos, mais de ano após eu ficar desempregada e largar definitivamente a carreira de publicitária. Antes disso, me era claro, ele não tinha direito. Ainda assim, após ficar sem trabalho, custei a entender este benefício.

Ele recebe o BPC – Benefício de Prestação Continuada, no valor de um salário mínimo nacional, no caso dele, concedido como ajuda governamental à sua deficiência, sendo necessária a comprovação regular de que ele precisa – que tem despesas fixas altas e que a renda mensal familiar é baixa. Já o Bolsa-Família, sempre me pareceu óbvio que não tínhamos direito. No entanto durante um recadastramento, exigido pelo Ministério do Desenvolvimento Social, em 2012, ficou estabelecido pelo sistema – o literal, pelas “contas do computador” que, sim, tínhamos direito. Insisti junto ao CRAS que não me parecíamos família em condições socioeconômicas para receber o Bolsa. Em agosto de 2012 passei a receber R$ 64,00 mensais - R$ 32,00 por filho – Yuri e Caio. No recadastramento – que aí entendi – é anual, de 2013, o valor foi praticamente dobrado, novamente no automático, pelo sistema. Passei a receber 134,00 (valor este calculado para dois filhos). Nunca menti informações, nunca criei situações favoráveis nem alterei dados para o recebimento do benefício. Acredito que num país de tantas desiguldades sociais, ainda somos – eu e meus filhos – privilegiados. Mas, não era uma questão de eu querer o Bolsa Família. Repito: o sistema nos dava.

Mas, justamente, de um ano pra cá, ele passou a ser de grande ajuda. Caio tem suas sabidas intolerâncias alimentares, o que torna sua simples alimentação diária muito mais onerosa do que a que qualquer criança sem este tipo de intercorrência. Faz uso de três anticonvulsivos contínuos, não padronizados – o que significa que não são fornecidos pelo poder púbico – que alcançam o valor de R$ 1.000,00 mensais. Pago a ele um plano de saúde cuja mensalidade fica em torno de quase R$ 200,00. Luxo, alguns classificam. Sobrevivência e relativa tranquilidade, afirmo eu. Lembrando que Caio tem epilepsia de difícil controle, ao longo de três anos teve crises que exigiam suporte de oxigênio e outras intervenções médicas quase imediatas. Certa vez, sem plano de saúde, dependentes do SUS como a imensa maioria da população brasileira, ele teve uma crise e ficamos cerca de meia hora aguardando uma ambulância. Ela chegou sem NENHUM tipo de medicação ou cilindro de oxigênio. Seguimos até o Pronto Socorro com ele se debatendo em crise por mais uns 15-20 intermináveis minutos. E se não houveram complicações neurológicas, é porque nosso santo é forte. Com o convênio, quando necessário, temos uma ambulância totalmente equipada em, no máximo, 15 minutos. Soma-se à isso, a necessidade do Fortini, suplemento alimentar para crianças com intolerância e déficit nutricional e de peso. Que estamos com processo judicial há 10 meses. Mas que ainda não conseguimos receber. E que tem custado cerca de R$ 520,00 para fornecer as 13 latas que Caio necessita.

Logo, o BPC é um auxílio. Mas não supre – de longe – todas as necessidades do meu filho. E porque não entrei no mérito de fraldas, medicações para refluxo e outras despesas. Para minha péssima surpresa, desde o mês passado, perdi o benefício do Bolsa Família. Como durante a entrevista eu falei que no mês anterior tinha conseguido cerca de R$ 300,00 com meus docinhos, isto foi o suficiente para eu sair dos critérios do programa.

Vai me fazer uma puta falta! E me revolta em N questões. Sei que não pertenço às condições de miserabilidade que, em tese, o programa prega. Mas é isso: precisamos ser miseráveis para ter algum apoio governamental? Ou mais: se já não há – no meu caso – como atuar no mercado formal de trabalho, devo também me acomodar a ponto de não buscar alternativas de implemento de renda, é isso? Devo então me encaixar no sistema aclamado pela grande maioria de que tenho mesmo é que fazer mais filhos e me encostar total no benefício, sem tentar exercer qualquer atividade laborativa – ainda que informal? 

Eu tenho internet, alegam alguns. Se posso gastar quase R$ 100,00 por mês com internet, não sou mesmo merecedora de um benefício social. Sim, para receber o benefício social tens que ser alienada, semianalfabeta e não pode investir em renda extra. Eu gasto em internet, mas ela me retorna em quase 3X este valor por mês em bicos: docinhos, trabalhos acadêmicos, etc. Eu não preciso me justificar nem listar todas as mazelas que enfrento mês a mês para manter com dignidade meus filhos - e acreditem, muitos se espantariam em sabê-las.

Ok, eu não tenho direito ao Bolsa Família. E meu filho deficiente não tem direito aos medicamentos que necessita. Não conseguimos via judicial um alimento que foi pedido em caráter de urgência ano passado. Não temos direito a acessibilidade, inclusão, transporte digno, aceitação da sociedade. Ao mesmo tempo, ainda ontem, vi que para comprar somente o Fortini do Caio, o governo me abocanha 48% (cerca de R$243,00 mensais) em impostos. Para quê? Aonde este imposto está me retornando? Não é na saúde, não é na infraestrutura das calçadas da minha rua... Ou seja, nessa hora, só consigo ver claramente que o governo caga para o meu filho, para nossas dificuldades, para a possibilidade dele ter sua vida totalmente comprometida pela omissão do poder público.


Sou contra o assistencialismo. Mas é revoltante ver a falta de amparo governamental às minorias – nem tão minorias assim, estatisticamente comprovado – e aí incluo as questões de igualdade social mesmo – independente de condição física, orientação sexual, credo, raça. Relembro sempre o episódio em que recebemos de presente de uma amiga, um oxímetro portátil importado (que usamos sempre, de grande valia para os períodos de crise convulsiva de Caio) via Correios. Tivemos que pagar de impostos mais do que o que ela tinha pago pelo produto originalmente. Caio tinha que pagar impostos, como qualquer cidadão. Na volta pra casa – do posto de Correios que fica no centro da cidade – este mesmo pequeno cidadão amargou mais de uma hora no ponto de ônibus à espera de um veículo adaptado que o conduzisse em sua cadeira de rodas. Temos muitos deveres. E cada vez menos direitos. Agora mesmo, o governo descobriu que eu não tenho direito ao Bolsa Família. Então eu pergunto: tenho direito ao quê, mesmo???