domingo, 16 de outubro de 2016

O sol de dentro da gente

Aqui no RS, passamos a semana passada em alerta metereológico de possíveis temporais. Muitas pessoas adiaram planos e ficaram invariavelmente já de mau humor aguardando as precipitações. O que só se confirmou hoje, domingo. Então, te pergunto: de que adiantou o sofrimento antecipado? E dias incontáveis de mau humor? Aliás, segundo a metereologia, agora que a chuva chegou, ela se estende por praticamente toda a semana. E aí, vamos ficar de cara fechada pra combinar com o clima?

Tenho um "mantra pessoal", que são falas que criei para mim mesma, para aguentar os solavancos da rotina e me fortalecer na caminhada. Entre eles estão, "eu só acordo para vencer", "viver é para os fortes", entre outros. Mas um dos meus prediletos é: "o que importa é o sol que brilha dentro da gente".

Nada é mais determinante do que a força do que vive em nosso peito e em nossa mente. Olhar a rotina e os acontecimentos da vida com o prisma da positividade e gratidão torna a caminhada mais leve e prazerosa, por mais íngreme ou estreito que seja o caminho.



Me vem à lembrança, um dia muito feliz que vivi. E sei que neste dia chovia muito. Porque alguém me alertou: "nossa, mas tu foste até lá e fizeste tudo isso, com esse tempo?" Ao que respondi: "Choveu? Nem notei". Obviamente que eu sabia da chuva, mas nada era mais importante do que vivenciar aquela alegria que acelerava meu coração naquele dia. Este sentimento era o sol que brilhava dentro de mim. Foi a ele que dei valor.

Podemos e somos convidados a fazer isso todos os dias de nossas vidas. Haverão os dias de sol, os dias nublados, os de refrescante chuva, os de temporais intensos. E haverão os arco-íris para nos lembrar que em tudo, pode-se ter cor e beleza. Não podemos pular o calendário para viver só os dias que nos agradam. Mas podemos manter sempre pulsando dentro da gente a força, a radiação, a luz de um sol emocional e mental.

Vamos juntos? Linda e iluminada semana pra vocês.
Um beijo,
Cláudia

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ouvir e falar

Quando me formei na faculdade, em 1995, o paraninfo foi o jornalista Ruy Carlos Ostermann. Seu discurso era: sobre: Saber ouvir. Dizia ele que nós, só haveríamos de exercer bem nossas profissões, em qualquer um dos três segmentos da comunicação -jornalismo, publicidade e propaganda (o meu) ou relações públicas, se soubéssemos ouvir. Ouvir para falar? Eu havia feito o curso para escrever, para me tornar uma capacitada redatora! A questão é que acreditava que eu poderia ter algum dom com a escrita. Sempre me apresentei como sendo melhor na escrita do que na fala. Eis as reviravoltas que o mundo dá, eu abandono minha carreira por 7 longos anos. Porém, não abandonei os textos, criei um blog... e lá fui alimentando este amor com as palavras. No entanto, no início deste ano, um convite inusitado: tu não quer dar uma palestra? Para mães de crianças com deficiência, contar tua experiência, teu aprendizado, teu ponto de vista. Perguntei: quem haverá de querer me ouvir, uma desconhecida “mãe”? Mas, topei. E me apaixonei por este caminho. E de lá pra cá, tenho falado mais e mais. As mães em especial, se emocionam. Se sentem compreendidas. Ficam a refletir. Me abraçam e agradecem. Na última palestra, em Farropilha, uma das mães mais emocionadas veio me dizer que não tem um filho com deficiência. E ainda assim, meu relato lhe caiu como uma luva. Então lembro do primeiro momento inesquecível da fala de meu paraninfo. Sobre quando temos coisas boas a partilhar: “Mas você precisa falar disso o tempo todo, você precisa falar para as pessoas”.


As minhas palavras que nascem sempre do papel ou do teclado, ganham asas. E minhas falas começam a ir além do evento inicialmente destinado. Estou começando a montar uma agenda com outros locais, outros públicos. Estou sendo convidada a falar também de outras facetas de minha vida, outros temas. Me honra ter quem queira ouvir. Caminho lindo, não de ensinar, mas de trocar. E mais uma vez relembro o paraninfo: “Vamos falar menos, vamos ouvir mais. E quando nós falarmos, que nos ouçam". Busquei a faculdade para melhor escrever. Hoje me vejo locutora dos meus textos. Como já entendi e compartilhei nesta nova fase da minha vida, a palavra é meu destino. E hei de cumpri-lo.

domingo, 9 de outubro de 2016

Gracias a la vida

Quinta-feira passada sofri um assalto à mão armada. O segundo de minha vida. Não existem palavras para descrever o que passa na cabeça e no coração da gente numa situação dessas. Agora fica o trauma por um tempo, a desconfiança de qualquer pessoa que se aproxime da gente, na rua, a qualquer horário. Com tudo que se tem notícia sobre a violência nacional, sei que devo agradecer por estar viva. E aí, me caiu a maior ficha.

Quatro anos atrás eu enfrentei uma depressão profunda. Um processo acumulado de uns 3 anos. Chorava quando acordava de manhã, pois abrir os olhos significava que eu estava viva, teria que tocar aquele dia que me tinha sido concedido mais uma vez. Mas, ao longo destes dias, eu ficava pensando em maneiras de acabar com minha vida, modo pelo qual eu acreditava, teria fim o sofrimento que machucava minha alma. A cada rua que eu cruzava, pensava em me atirar na frente de algum veículo. Felizmente, eu nunca tive coragem.

O assalto dessa semana me mostrou o quanto estou curada. Eu tive um medo tremendo de morrer. Porque eu quero demais viver! Porque amo minha vida. Porque fui lembrada de tantas pessoas as quais sou importante e faria falta, que me amam. Porque ainda tenho tantos sonhos e planos futuros a realizar. A vida não é fácil. Mas é linda. Apaixonante. Instigante. Descobri que posso sempre extrair mais dela do que ela me oferece. E é isso que tenho feito, nos últimos três anos, a cada agora abençoado amanhecer que me é presenteado.


Como eu disse, fica o trauma, o medo. Mas como adoro ver a metade cheia do copo, quero terminar essa semana que me foi de uma grande provação, te lembrando sobre gratidão na adversidade; sobre como até o que é ruim pode ser uma oportunidade de reflexão e crescimento. Te falar que até o fim do poço, tem saída. Falo com propriedade eu já estive lá. Hoje, sou grata à minha vida! Seja grato à tua, à incrível chance que vais receber amanhã, quando o sol nascer, de tentar fazer ainda melhor.
Vamos juntos!

Um beijo,
Cláudia

domingo, 2 de outubro de 2016

Gratidão e vitória andam de mãos dadas

Hoje o nosso encontro de final de domingo é um pouco diferente.

Escrevo este texto ainda no sábado, pois trabalho com um vereador e domingo (amanhã) ficarei o dia todo envolvida com as eleições. Escrevo sem saber do resultado do pleito. E quero te falar de vitória e gratidão, para inspirar a semana que vai começar. Não, eu não sei, não tenho como saber se sairemos vencedores. Se manterei meu emprego. Trabalhamos arduamente para isso, mas o eleitor é quem é o verdadeiro soberano. Mas, não é disso que quero falar.

Quero te contar que, independente do resultado de amanhã, estou grata. E sei que venci. Estou grata por todas as oportunidades que esta recente experiência profissional me trouxe. Grata pelos colegas, pelas pessoas que conheci, as situações que vivi, o conhecimento adquirido. E venci, pois a cada dia, aprendi algo novo. A superar alguma insegurança. A desejar novos objetivos. Talvez, na hora em que consiga publicar este texto, as notícias não sejam as que espero. Te digo: não mudarão meus sentimentos.
E essa é a dica, o convite para a próxima semana: seja grato. Independente da situação. Não espere garantias de sucesso da vida para depois agradecer por elas. Seja grato pelo agora. Seja grato por aquilo que parece difícil de agradecer, pois sempre há na dificuldade imensas oportunidades de evolução. E que saber? Eu acredito que esse é o segredinho daquelas pessoas que nós costumamos chamar de vitoriosas. Olhar absolutamente tudo com entusiasmo, confiança e gratidão te abrem novas perspectivas. Olhar com pessimismo só te incentiva a desistir. 

Eu sou grata pelo que vivi, independente do que o amanhã me reserva. Pois sei seguramente que a soma de minhas experiências – boas e más – me prepara para lidar de forma cada vez melhor com o que virá.

Se tua semana terminou de maneira difícil, agradeça. Ela te preparou para tirar de letra futuros obstáculos, se eles vierem. Ou te farão aproveitar ainda melhor as alegrias que te estão reservadas. Se ela inicia com boas perspectivas, agradeça! Certamente os dias bons são frutos daqueles não tão bons assim que tu já venceste.


Gratidão e vitória andam de mãos dadas. Junte-se a elas e tenha uma linda semana.

Um beijo,
Cláudia

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Missão e Propósito: quais os teus?

Em meu processo de Coaching, “travei” em escrever sobre minha Missão e Propósito acerca do meu objetivo traçado. Confessei para minha Coach que é uma tarefa bastante difícil. Viajando em meus pensamentos, meu objetivo dentre desse estudo é alcançar um determinado status pessoal e profissional que me traga realização. E sendo realizada, serei feliz. Logo, acho que o desafio é pensar quais os caminhos que podem nos conduzir mais efetivamente à almejada felicidade.

O dicionário trata ambas como praticamente sinônimos. Missão é uma tarefa, uma incumbência, uma obrigação, um propósito. Propósito, por sua vez, é a intenção, projeto, objetivo. Na folha do meu exercício de Coaching, a frase: Missão é um propósito que atrai a pessoa para a vida.

Confabulando a respeito, a distinção que faço é que minha missão é aquilo que estou destinada ou determinada a fazer; o propósito é qual o sentido disso tudo.

Eu diria que minha missão é ajudar as pessoas. Sim. Pode parecer até prepotente de minha parte. Mas é isso que gosto, quero e acho que sei fazer. É o que procuro fazer no meu trabalho, orientando pessoas sobre seus direitos, especialmente famílias com filhos deficientes ou alguma necessidade especial. É o que faço quando sou procurada para um atendimento em reiki ou tarô ou quando realizo meu trabalho espiritual. Tornou-se um caminho natural aqui no blog, quando compartilhei minhas experiências. É o que me gratifica quando dou minhas palestras.

E sabe, vou te contar uma coisa. Eu quero te ajudar. Eu, que sofri um sentimento de abandono na infância, bulling, fui vítima de violência doméstica, tive depressão profunda e um filho com deficiência por erro médico. Eu que passei grande parte da minha vida achando que era uma coitadinha, uma sofredora.

Pois eu virei o jogo. Entendi e decidi que de coitadinha não tenho nada. E que minha vida corre por minhas mãos. Me coube tomar-lhe as rédeas. É isso que tento mostrar com minha vida. Dá pra virar o jogo. Dá pra mudar, crescer, transmutar, vencer. Um dia de cada vez. Mas dá. Falo de atitudes, de pensamento, mas na prática. Pense, queira e faça acontecer.

Então, descubro que este é o meu propósito. Fazer diferente. E, quiçá, fazer diferença na vida de alguém. Quando minha orientação a uma família mostra como conseguir algum direito garantido em lei para sua criança e isso lhe traz alento. Quando meu atendimento holístico devolve esperança a alguém que está se sentindo desorientado. Quando alguém lê minhas palavras e me agradece porque a mensagem a sensibilizou. Quando recebo um abraço de gratidão após cada palestra. Quando toco o coração do outro. E o meu bate mais forte por isso.


Missão e propósito não precisam ser, necessariamente, grandiosos materialmente, ou facilmente quantificados ao olhar dos outros. Basta que te motivem a acordar todo dia e arregaçar as mangas com vontade. Que te deixe com aquele brilho inconfundível no olho. Que te recarregue com vontade de fazer mais e mais. Eu acho que encontrei os meus.


domingo, 25 de setembro de 2016

Bons sentimentos são exercícios

Estava aqui pensando em alguns feedbacks que recebo das pessoas de meu convívio, amigas próximas, leitores do blog, amigos de redes sociais, de qualidades positivas que, generosamente, enxergam em mim. Alegria, bom humor, determinação, positividade, são algumas listadas.

Vou confessar para vocês.
Eu não sou assim.
Mas me esforço muito para ser.

Sou ansiosa, mas me esforço para ter serenidade. Meu humor é oscilante, mas me esforço para mantê-lo no patamar mais elevado possível. Sou insegura, mas uso de todas as ferramentas que disponho para aflorar meu lado mais motivado. Enfim, eu luto brava e constantemente para reverter o jogo.

Dentre os tantos aprendizados que a vida me trouxe, acredito que o maior deles foi o de que "a felicidade é um hábito". Ouvi isso num vídeo e me marcou demais. E hábitos se constroem. Se cultivam - e o cultivo, nem sempre é fácil. Pelo contrário, se exige empenho, tempo, cuidado. Os bons sentimentos que carregamos no peito e vida afora são exercícios. Se não os cultuarmos diariamente, tais como músculos, eles enfraquecem e deixam de existir.


Exercito meu bom humor. Uma querida amiga disse dia desses que adora minha capacidade de fazer piada de mim mesma. Respondi: prefiro ser caricata à infeliz. Exercito minha fé de que tudo vai dar certo, sempre da melhor forma. Prefiro ser utópica à pessimista. Exercito minha tenacidade, lutando contra árduos obstáculos. Prefiro insistir do que desistir. Exercito. Alguns dias, falho. Tudo bem. No outro, sigo exercitando. 

Os maus sentimentos nada me agregam. Tornam meus dias e minha vida sem sentido, um muro de lamentações. Os bons sentimentos me trazem razões para continuar. Justificam, com sua existência, todos os caminhos percorridos, apesar das asperezas. Então, eu quero ser feliz, motivada, forte, bem humorada, amorosa, grata, sensível, amiga, dedicada, batalhadora, competente, inspirada. E para isso, eu exercito este querer todos os dias. É mesmo incrível a capacidade que ele tem.

Hoje, de novo, é aquela horinha de começar a se organizar para a semana que vai começar. Minha dica é: queira ser feliz. Deseje ser positivo, motivado, alegre, grato por sua rotina. Motivos para o contrário devem existir às pencas. Abra os olhos e coração para ver os ganhos que exercitar os bons sentimentos vão te trazer. 

Repito: Queira ser feliz. E seja!

Uma semana cheia de bons exercícios a todos! Depois, deixa nos comentários, como tem sido. 

Um beijo,
Cláudia

domingo, 18 de setembro de 2016

Bota fé e vai!

Na minha palestra “Desafios e Possibilidades da Deficiência”, um dos tópicos fala de fé. Sem levantar bandeiras em prol de uma ou outra religião e/ou crença. Mas eu falo que acredito que por mais pragmática, materialista ou objetiva que a pessoa se considere, existem experiências na vida que praticamente inviabilizam a teoria de que somos apenas um conjunto de átomos e que existimos somente durante o breve espaço entre nascer e morrer.

Tudo há de ter um porquê. Um motivo. Ou, como eu prefiro denominar, uma missão, um propósito. Não entra em minha cabeça que recebamos diariamente, um caminhão de desafios a serem superados por nada. Que grandes tristezas tenham que ser enfrentadas por mero acaso. Ou até mesmo que imensas e, por vezes, inesperadas alegrias, batam despretensiosamente na porta de cada um.

Em primeiro lugar, quando a gente tem fé, a gente acredita no amanhã, com confiança e sem ansiedade. Quando a gente crê que a vida é algo além de nossas forças físicas, nos conectamos com ela em sua essência, apreciando sua beleza. Quando olho para as maravilhas da natureza, evidenciado num lindo pôr do sol, por exemplo, eu posso trazer todas as leis da química, física e biologia para justificá-lo. Ah, mas para explicar o encantamento com o qual ele nos toca... Aí surge o nome de Deus, de Buda, de Oxalá, de uma deusa mitológica ou da energia universal. E esta apreciação, unida a esta fé em algo além das evidências materiais, nos preenche de sentimentos bons. De positividade. De esperança. De ternura. De contemplação.


E estar preenchido de sentimentos bons, aí a neurociência comprova, é um grande portal de entrada para coisas ainda melhores – físicas, psíquicas, emocionais. E quem não quer o melhor para si mesmo? Então, encerrando o domingão, te faço um convite. No lugar da lamentação pelo término do final de semana, vamos colocar fé? No lugar do cansaço e mau humor antecipado pela segunda-feira, vamos colocar fé? Fé de que tudo vai dar certo. Fé na tua capacidade de realização. Fé nos teus projetos e sonhos. Fé em Deus, num orixá, na Bíblia ou no Livro de Mórmon, numa imagem, num patuá, oração ou ritual, se assim te fizer sentir ainda mais confiante. Mas, principalmente, bora botar fé na vida? Uma vida mais feliz depende essencialmente de acreditar que ela é possível. Bota fé e vai! Depois, aqui nos comentários ou na nossa página do Facebook, me conta como foi!

Uma semana inspiradora e motivada a todos!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Tempo de Florir

E as respostas, vêm da Natureza. Vivo dias difíceis, onde a ansiedade é meu maior inimigo. Quando?, me pergunto. Quando parar de desejar fixamente? Quando estiver distraída? No tempo de Deus, eu sei... Mas árdua tarefa aguardar o agir dEle e não seguir se perguntando... Quando? Mais uma vez a resposta veio do meu humilde pomar. Fui colher limões para um suco e minha atenção é desviada... Olho mais de uma vez. Não sei o nome desta planta. Sei apenas que ela gera uma linda flor alaranjada. Era uma das paixões de minha querida vó Piti. Quando saí de Porto Alegre e vim para Canoas, em dezembro de 2003, trouxe várias mudas comigo. Mas, ao longo destes anos, ela nunca floresceu. Nunca. Uns tempos atrás, fitei-a no pátio e me perguntei se não seria tempo de deixá-la morrer. Porém, mesmo sem flor, ela seguia viva. Qual o propósito, se não florescia? Pois hoje, quase 13 anos depois, seu colorido alaranjado desviou meu olhar do limoeiro. Carregada de botões em flor. Eu, que nem acreditava mais rever esta cena, me emocionei. Ela está florindo. Quando as flores deixaram de ser alvo de ansiedade e preocupação. Quando não havia ninguém observando. No tempo que foi necessário, ela volta a se abrir em flor.
Coincidentemente minha mãe deu uma passada rápida aqui em casa e lhe comentei o fato. "Bah, então este é o ano das flores, me disse ela", relembrando da outra muda de flor que cultivo e que demorou exatamente 364 dias para voltar a florir.
A natureza, minha mãe, o Universo, todos juntos trazem as respostas.
Calma, Cláudia. Serena teu coração. Teu jardim também está prestes a se abrir em flor. Enquanto o dia não chega, aprecia a companhia dos limões, das kalanchoes, a colheita da arruda, do gengibre e o reflorescer do manjericão. Ou seja, desfruta das paisagens e sabores que a vida te oferta, enquanto não desabrocham tuas flores. Vive e confia. A primavera - da tua vida - está chegando.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A palavra é o meu destino

Eu aprendi a escrever sozinha, aos cinco anos de idade. Guiada pelo dedo indicador de minha mãe, que me lia gibis em seu colo, fui linkando as letras e formando as palavras. Quando ingressei na escola, aos seis então, eu já estava mais do que familiarizada com elas, apaixonada. E decretei: quando crescer, vou ser escritora.

Aos 10 anos, já com uma coleção de poesias e textos autorais, além de uma grande intimidade em leituras diárias com o jornal Correio do Povo em seu tradicional formato tablóide, escolhi a futura faculdade: Jornalismo. Escolha esta que, ditada pela alma livre dos meus 17 aninhos - quando da inscrição para o vestibular - virou Publicidade, pois eu desejava maior autonomia criativa a meus textos.


No caminho, desvios, decepções... e eu parecia me afastar do destino traçado por aquela menina de cinco anos. Em 2004, no auge da frustração profissional, criei meu primeiro blog. Neles, liberdade para minhas crônicas e ideias, traduzidas em palavras. Confesso que este primeiro blog, tinha apenas três leitores assíduos e fiéis. Hoje tenho convicção, mais pelo generoso afeto de suas amizades para comigo do que propriamente por meu talento literário.

Em 2005, nasceu Caio, meu segundo filho. E sua chegada um tanto conturbada - fruto de uma gravidez não planejada, prematuro, risco de vida, pai do outro lado do planeta - foi a mola propulsora para que, mais uma vez, eu me agarrasse às palavras. Fiz do blog meu diário, meu primeiro grande terapeuta, meu confidente, durante os 55 dias que Caio ficou na UTI Neonatal. E eis que um dia, recebo um email, de uma moça, se identificando ser de Campinas, que tinha lido minha história, estava solidária ao que eu passava, torcia por Caio. E chegou outro email, de outra moça, de Minas Gerais. E outro, de São Paulo. Do Rio de Janeiro. De Portugal! Dos Estados Unidos! Como assim? O que tinha acontecido? No fundo, eu sabia a resposta, desde o início. Ainda que fossem textos de caráter extremamente pessoal, minhas palavras tinham tocado o coração das pessoas.

E contextualizem este alcance, em tempos que as redes sociais engatinhavam. O finado Orkut era bebê. Não haviam os compartilhamentos de posts e tantas outras facilidades digitais. Internet banda larga ainda era raridade. Pois meus textos me linkaram a pessoas. Criaram laços de afetos e oportunidades. De viagens. De trabalho. De ajudas a meu filho.

Para quem não sabe, está chegando agora, meu filho caçula tem paralisia cerebral. E por conta disto, fiquei sete longos anos afastada do mercado publicitário. Deixei de ser redatora. Mas nunca deixei de escrever.Entre meus hábitos, ter sempre à mão, uma pequena caderneta e um caneta. Uma paisagem vista de dentro do ônibus. Uma situação cotidiana. Um pensamento. Tudo pode virar inspiração com uma necessidade urgente e quase imediata de se transformar em palavras. Sim, sempre elas... As palavras. Que me trouxeram ao lugar que estou, que me fizeram ser quem sou hoje.





E quem eu sou hoje? Ainda uma aprendiz da vida. Ainda uma apaixonada pelas palavras (ainda bem!!!). Nascidas em meus textos, elas hoje tomam minha voz. E falo sobre como cheguei até aqui. Falo do que vi da vida. De uma trajetória que nem sempre me sorriu, mas que eu decidi sorrir pra ela. Falo sobre vencer a si mesmo. Sobre a felicidade como escolha e como hábito. Sim, eu recebi apoios, procurei ajudas, não andei sozinha. Mas a iniciativa transformadora sempre partiu de mim. 





Eu sou a autora de minha própria história.
E a palavra é o meu destino.

Sejam bem-vindos à nova fase do Meus Frutos!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A fralda Jota

Há cerca de um mês, Caio deixou de usar fraldas infantis (ele usava XXG) e passou a usar fraldas J. Jota de Juvenil. Uma escala antes dos tamanhos de adulto. Foi o natural caminho de seu crescimento e resultado também dos 12 quilos a mais pós gastrostomia. Mas sinto a necessidade de compartilhar que, por isto, vivo mais um luto.

Houve um tempo em que ele até ensaiou um desfralde. Mas, não conseguiu ir adiante. 
E a mim, é inevitável não sentir cada "não" com o triste sentimento de fracasso. Sim, sou ciente de tudo o que já conquistamos, tão enormemente além dos prognósticos iniciais. Mas não conseguir, ainda machuca. 

Penso que cada "não consequimos" nos afasta da normalidade que eu tanto idealizei (e, aí atentem, estou falando de mim, exclusivamente de meus sentimentos). Algumas vezes, o não me assombra com fantasmas futuros: Como serão as dificuldades, responsabilidades e até mesmo complicações mais adiante? Cada não, é uma luta que foi perdida. Apesar de todo o nosso empenho. Ao mesmo tempo, o não me lembra que, apesar de tudo, a gente vai seguir. Que a dor, que agora acolho, também vai passar. Um dia, talvez volte aqui e fale da superação dela.

E esta é a insistente sementinha que ando querendo distribuir por aí, quando falo em aceitação. Aceito toda nossa trajetória e tudo o que vivemos até aqui. Mas também sei que alguns momentos serão mais difíceis do que outros; ainda que apenas inicialmente, ainda que só aqui dentro do meu coração. Aceito e acolho meu sofrimento pela confirmação de um filho pré adolescente que precisa usar fraldas. Não julgo se estou certa ou errada em sentir assim, pois afinal é exatamente assim que sinto. Aceito. Sei que fizemos nosso melhor. E tento ver que não é que este esforço não foi suficiente. Foi na medida para nos trazer ao patamar que estamos hoje. Abraço minha frustração e digo a ela: tudo bem, tu também vens para me fazer crescer. Hei de entender, logo mais.

Coragem para mudar o que se pode mudar, serenidade para aceitar o que não se pode mudar e sabedoria para distinguir uma situação da outra, eternizou São Francisco. Serenidade. Palavra linda. Conquistada. Estou triste. Mas serena. Já mudamos tantas coisas... Já sorrimos por tantas árduas vitórias. Uma fralda Jota é apenas mais uma lição que fica. No caminho, nem tudo é flor. Mas tudo pode virar fruto.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Prematuridade e o tempo

Hoje é o Dia do Prematuro. Segundo a literatura médica, prematuro é o bebê nascido antes das 37 semanas de gestação. Caio, que veio ao mundo com 33 semanas e 5 dias, é considerado um prematuro moderado. Sua paralisia cerebral e sequelas não são resultado desta prematuridade. Clínica e juridicamente foi comprovado que deveriam ter deixado ele estrear no mundo no dia em que ele escolheu - 12 de maio. Cinco dias contra o tempo escolhido por ele e meu organismo, mudaram toda a história. E ao longo destes quase 11 anos, não foram poucas as vezes em que me questionei sobre este grande Mestre: o Tempo.

Sempre digo que Caio nasceu com urgência de viver. Não quis esperar julho despontar, como indicava o acompanhamento de pré-natal. E vindo, chegou para experimentar e causar todas as mais fortes emoções juntas: medo, coragem, dor, fé, doação, impotência, generosidade. Menino que nasceu intenso.

Lembro quando ele completou seu primeiro mês de vida na UTI. Quis lamentar ele não estar em casa. Ao contrário, celebrei este precioso, até mesmo inimaginável, tempo de vida. O tempo foi meu aliado. E foi também meu carrasco quando a alta hospitalar nunca vinha - 30, 42, 55 dias. E então ela chegou! E teríamos todo o tempo do mundo!
Tempo para descobrir que ele não fazia nada ao tempo tradicional. Não sorriu. Não sentou. Não andou. Não falou. Tempo de entender que dali pra frente, a vida deixava de ser guiada pelo calendário e passaria a ser medida pelo alcance. Quão longe conseguimos ir.

Se ele não viveria um ano, segundo os prognósticos mais otimistas; estamos às vésperas de celebrar seu décimo primeiro aniversário. Se ele não sorriria... A vida, o amor, lhe ensinaram. E isto, ele nunca mais desaprendeu. Se ele teria um grave comprometimento; hoje ele é o feliz aluno da quarta série do ensino regular. Se nada seria possível; hoje tudo é uma possibilidade. Talvez melhore sua comunicação, talvez consiga ainda algum tipo de marcha - mesmo que não independente. Quanto tempo passou? Nem lembro mais! 
O fato é que aquele valente bebezinho prematuro tem chegado bem longe.

Não foram poucas as vezes em que quis voltar no calendário e mudar aquele nosso maio de 2005. O tempo - sempre ele - me trouxe o entendimento e a paz de que está tudo certo. O tempo não erra; não há cedo ou tarde. Caio pode ser prematuro, mas nasceu no tempo certo. Cumprimos nosso destino, este nosso reencontro foi muito bem planejado. Desde os mais antigos tempos a gente combinou de amar um ao outro. E assim tem sido!


sábado, 12 de março de 2016

"Eu serei tuas pernas..."

Tenho oito tatuagens. Nenhuma delas fruto de impulso juvenil. A primeira chegou depois dos 37 anos. Todas planejadas, pensadíssimas. Mas a mais significativa delas, completou um ano esta semana.
Foi para Caio. Foi por Caio. E por mim.
Eu acredito que uma das maiores expectativas da família e da sociedade para com uma criança com paralisia cerebral é vê-la caminhando (embora, claro, nem todos os PCs sejam cadeirantes). Ao menos comigo, foi assim.
Quando Caio completou um ano, transferi meu sonho de vê-lo dar seus primeiros passos para o segundo aniversário. O que não aconteceu. Então imaginei que poderia acontecer, quem sabe, no quinto ano, no sétimo... Neste meio tempo - aos três para quatro anos - veio a primeira cadeira de rodas substituindo o carrinho de bebê e um dos primeiros choques de realidade: sim, ele era cadeirante; não, ele não conseguia andar.
Mas a vida foi me trazendo maturidade para entender e aceitar. Talvez ele nunca ande. E nossa - nem a dele, nem a minha - alegria em viver não pode ser atrelada a isso. Não fazemos fisioterapia com o objetivo exclusivo dele vir a caminhar. Onde exerço minha fé, também. Vivemos por onde nos faz bem. A fisioterapia evita atrofias e dores. A fé fortalece a alma para amparar o corpo.
Sempre afirmo que Caio transformou todo o meu olhar sobre a vida e as pessoas. Principalmente me ensinou que ser guiada pelo coração não é sinônimo de fragilidade. Nosso coração é sábio e forte, na imensa maioria das vezes conhece as melhores escolhas, os melhores caminhos.
Então eu assumi, como já disse, especialmente para mim: meu filho não consegue andar. Mas isso não o faz menos amado nem menos feliz. E tatuei a imagem e escrevi este texto no mesmo dia, a sua tradução literal: 
O tempo que preciso for
Ainda que nossas vidas inteiras, meu filho
Eu serei tuas pernas
E serás tu meu coração
Um ano se passou. A gente segue lutando, fazendo fisio e exercitando a fé de que nada é impossível. Mas, principalmente, seguimos sendo alegres e gratos pelo que temos: a oportunidade diária de sonhar, lutar e sorrir. Está marcado no corpo, tatuado em nossas almas.


terça-feira, 1 de março de 2016

Borboleteando por São Paulo

Estou devendo um relato de como foi São Paulo. Foi um divisor de águas. Para mim, novos frutos sendo colhidos e saboreados. Para Tamara Wagner, nossa fotógrafa idealizadora do Projeto Borboletas, a oportunidade de ver seu sonho da inclusão pela fotografia voar mais alto. Uma Tarde Especial no Parque Edição São Paulo, foi um sucesso! Muitas famílias, muitas trocas, novas amizades surgindo, vínculos se fortalecendo e muita energia boa. Missão cumprida!




Neste mesmo final de semana foi ao ar a reportagem do Mistura (clique AQUI para assistir) e o feedback foi maravilhoso. As Borboletas ainda vão voar, quiçá, por todo o Brasil. E é isto que a gente sonha e tem trabalhado arduamente para. Estou prestando uma assessoria à Tamara em vários passos e hoje posso dizer que sou oficialmente parte da equipe do Projeto Borboletas. Além do que, a princípio, minhas palestras serão “quadro fixo” de todas as edições vindouras da Tarde no Parque.

Ah, o bate-papo com as famílias... Sim, tinham pessoas interessadas em me escutar. Como iniciante, estava nervosa, mas numa média ponderada também diria que o resultado foi atingido. Como já tinha me proposto, falei dos aprendizados que acho que tive nesta caminhada. Jamais como pretensão de colocar como verdade absoluta, apenas como um relato da minha experiência e do que deu certo, do que me ajudou e fortaleceu. E a regra é clara: se servir para alguém, beleza, leve. Se não servir, beleza também, valeu a oportunidade.

Como era um piquenique num parque, sentamos em círculo. Primeira emoção: a busca por minhas curas iniciaram nos Círculos Femininos. E agora, estou eu ali, em círculo, podendo partilhar minhas experiências com outras pessoas. “Quando eu me curo, eu curo a outra”. Que benção! Gratidão! Segunda emoção: havia vários pais, não só mães, que também se interessaram em fazer parte. Este é o mundo que a gente almeja. Amor em igualdade. Ao término da minha fala, pude ver olhos marejados me fitando. Não, a ideia não era fazer ninguém chorar. Mas pude perceber que alguns corações foram tocados. Missão mais que cumprida!











Ao fim, ainda fui muito acarinhada, o que realmente tornou esta Tarde ainda mais Especial em meu coração. É isto que quero fazer. Acender uma luzinha no coração de quem às vezes se sente triste ou perdido com este mundo da deficiência de um filho. Lembrar que todos os sentimentos são válidos e devem ser vividos. Dizer que está tudo certo, até quando parece que não está. Reforçar que ser feliz ainda é, sim, uma escolha. E que temos direito a ela. Mais do que isso: existem caminhos possíveis e gratificantes. Como este que me encontro agora, como palestrante de Uma Tarde Especial no Parque, dentro do Projeto Borboletas.








Fora isso... Ah, os ensaios... Eu achei que o de Caio foi a realização máxima de meu sonho. Sim, foi. Mas poder acompanhar histórias de amor incondicional e superação, como a do lindo Matheo e sua família – que tive a alegria de conhecer em São Paulo – trazem aquele quentinho ao coração, aquela fé maravilhosa na vida. 





Se estou neste caminho é porque tenho a partilhar – não a ensinar. Mas tenho ainda mais a aprender. Li num texto esses tempos que quando o homem acha que chegou ao topo, ele começa a morrer. Eu sigo aqui, feliz demais com minha condição consciente de aprendiz. Ainda bem!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Pra frente é que se anda

Então que o ano virou, chegamos a 2016. Ano do décimo primeiro aniversário do Caio, do décimo primeiro aniversário do Meus Frutos. Como já compartilhei aqui em outros momentos, não é mais meu diário, como foi por tanto tempo. Gratidão imensa tenho a este espaço que foi meu amparo por tanto tempo... Meus Frutos pra mim é uma entidade, quase uma pessoa, pois personificado em amizades e carinhos que colhemos ao longo destes quase 11 anos.

A vida vai fluindo, por um caminho cada vez mais de maturidade e aceitação. Como também já escrevi aqui, sempre existirão as questões envolvendo a deficiência pois, afinal, ela faz parte de nossas vidas. Mas o foco mudou. E é maravilhoso viver isso... São os nossos frutos, pessoais, meus, de Caio, de Yuri, parceiro nesta caminhada, sendo colhidos.

Em novembro do ano passado, Caio foi generosamente presenteado com um lindo ensaio fotográfico. Realizado pela fotógrafa gaúcha Tamara Wagner, que está se especializando em clicar crianças com deficiências, as "Borboletas" como ela as chama... foi um sucesso absoluto. Sucesso em meu coração, pois pude ver meu filho como eu sempre o vejo: com a infância em primeiro lugar. Brincando, se divertindo e sendo lindo como toda criança. E Tamara, com suas fotos, mostrou isso ao mundo, via redes sociais.













Clipe com as principais fotos do ensaio do Caio

Dali nossa amizade se fortaleceu ainda mais e seu projeto Borboletas está voando além das fronteiras do Rio Grande do Sul. Neste final de semana, iremos a São Paulo, levar A Tarde Especial no Parque e todo o seu sonho de inclusão pela fotografia, pela infância simplesmente. Iremos, pois vou junto. Honradamente fui convidada a conversar com as mães e pais, familiares presentes no evento. 


O que tenho a dizer? Ainda não sei bem. Talvez partilhar um pouco desta minha experiência de quase 11 anos como mãe "especial". Falar um pouquinho do luto, das dores, não para entristecer, mas para, quem sabe, amenizar culpas, naturais, a quem está recém chegando neste novo mundinho... Falar de fé, independente de convicções religiosas, para ir em frente, com amor e aceitação aos desafios que nos estão destinados. Falar de autonomia - para mães, famílias, crianças... Da importância de cortar o cordão umbilical para que todos possam crescer o máximo dentro de suas potencialidades - é necessário, e não temam este corte. O laço mais importante, o do coração, só se fortalece com esta coragem. Falar de como dá e é necessário sermos mulheres o tempo todo - com vaidade, com vida social, profissional, amorosa... pois já o éramos antes da chegada de nossos filhos especiais. Falar de inclusão e acessibilidade, aquela que sempre defendi, a que começa dentro de casa, dentro de nossos pensamentos... só podemos lutar por aquilo que verdadeiramente acreditamos e praticamos. 

Se vai ter gente para ouvir? Não sei... E não me importa. Se houver uma pessoa, terá valido a pena. Se não houver ninguém, terá valido minha reflexão pessoal. Eu, que durante anos, me deprimi em ter aberto mão de minha vida profissional, de uma possível carreira de publicitária, para ser "apenas a mãe do Caio". Quando aceitei ser a mãe do Caio, a vida me abriu um leque de outras oportunidades. Voltei ao mercado de trabalho, depois de 7 anos. E estou muito feliz atuando. E recebo convites para falar sobre ser "a mãe do Caio" e me sinto gratificada.

Recentemente, ainda nesta avalanche iniciada pelo movimento da Tamara e impulsionada pelo ensaio visto e curtido por mais de 3 mil pessoas no Facebook, fomos convidados à gravação de um programa local de entretenimento, o Mistura com Rodaika. Tamara foi entrevistada para um quadro que se chama Inspiração. Merecidíssimo! E eu e Caio, mais uma vez, fomos convidados a participar. 

Tenho uma pasta-arquivo com recortes das diversas vezes que eu e Caio fomos notícia. Reclamando do plano de saúde que estava falindo e deixando de atender. Reclamando dos ônibus sem acessibilidade. Divulgando a necessidade de apadrinhamento para a equoterapia. Denunciando a liminar judicial não cumprida do leite especial. Há cerca de 3 anos, fomos matéria de TV com grande audiência, num programa onde o apresentador bradava: Olhem para esta criancinha que precisa de ajuda! Não me envergonho. Foi necessário. Desta matéria de TV veio, com toda a minha gratidão infinita, a empresa que apadrinhou Caio em seu tratamento. E muitas vezes ir à mídia, é último grito de socorro para que os direitos básicos dos deficientes sejam respeitados e cumpridos. Mas hoje, vamos ser matéria de TV, onde a entrevistadora diz: Olhem que lindas estas crianças! Quanta beleza! Quanto amor! Quanta alegria de viver!


Eu e Caio falando de sua participação no ensaio do projeto Borboletas
Fotógrafa Tamara Wagner sendo entrevistada pela Cris Silva

O grupo que gravou para o Mistura
Me orgulho desta caminhada. Sim, é evolução. As lutas nunca deixarão de existir. Não sou hipócrita de dizer que nunca mais precisaremos reclamar, protestar, exigir o que é de direito. Mas hoje, me orgulho de ser a mãe do Caio. Não, não sou só a mãe dele. Mas também sou a mãe dele. Sim, é difícil e isso todos se sentem no direito de quantificar quando o olham em sua cadeira de rodas. Mas, sim, também é lindo, e maravilhoso e feliz. E isso, eu sei. Tamara sabe. O Mistura sabe. As mães de São Paulo saberão... Que todos possam saber.

Então, se tenho algo a falar, talvez seja isso. A vida segue. E ainda bem que pra frente é que se anda - com suas próprias pernas ou numa cadeira de rodas, tanto faz. Se tá difícil hoje, vai seguindo. Lá na frente, tudo vai fazer sentido. Se já tá bacana agora, joia, aproveita a viagem, vai ficar ainda melhor.

Que venha São Paulo. Estarei lá falando que "Ser mãe é sempre especial: dificuldades e possibilidades da deficiência". Obrigada, Universo. Obrigada, Caio. Obrigada, Tamara. A gente se encontra lá.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Aproxima a hora da colheita

O blog existe há mais de 10 anos. Antes da gravidez inesperada de Caio, era um espaço onde eu tentava exercitar minha veia criativa de redatora, além da frustração profissional que vivia naquele momento. A partir da gestação e todas as suas particularidades desde o início – não planejada, eu e marido desempregados, a ida dele para a Europa e eu ficando aqui sozinha com Yuri com apenas 4 aninhos... e tudo o que ainda veio pela frente...
Nasceram os Meus Frutos, o cyber espaço onde eu compartilhei minha maternidade com o mundo (e não é exagero... além de amizades por todo o Brasil que se fortaleceram, saíram do virtual e perduram até hoje... Alguns amigos internacionais também vieram!). A gravidez de Caio foi, literalmente, a semente. De novas vidas – a dele e as que se transformaram após sua chegada. De um longo processo, que mal eu podia supor o tão correto nome que dei ao blog. Meus Frutos eram meus filhos. Minhas ideias. Tudo que vinha de mim... Meus Frutos, hoje percebo, são os que plantei e cultivei ao longo deste processo transformador.

A dor e o medo podem ser positivos. Quando te tiram do lugar de mera vítima e te levam para o papel de contestação. Por que eu? Por que comigo? E aí, não no sentido de vitimismo, mas de busca pela compreensão do que a vida quis dizer quando te elegeu para este destino. Ou, para o que eu acredito hoje, do entendimento de que realmente NADA é por acaso. TUDO está escrito.

Acho que fé é essencial na vida das pessoas. Às vezes, uma revolução em nossas vidas e pronto, não acreditamos em mais nada. Acho isso tão triste. Para mim, se chama desesperança. Quando meu irmão morreu, subitamente, aos 25 anos, minha mãe “brigou” com Deus. Se Ele existisse, me dizia ela, não deixaria algo assim acontecer. Quando Caio chegou, colocando tudo o que eu achava que acreditava mais o que eu pensava que estava certo no olho de um furacão, eu, intuitivamente dizia: Está tudo certo, Pai. Sei que está. Aceito. 

Óbvio que nem sempre foi assim. A notícia de que tua gravidez perfeita culminou num filho com paralisia cerebral e graves sequelas para sempre nunca é tranquila. Mas foi no desespero e na dor e dentro do que eu achava que era vitimismo, que me perguntei: Por que eu? Por que comigo? E na busca das respostas, encontrei um novo caminho.
Um caminho que me permitiu preparar a terra, semear, cultivar novas crenças, novos conhecimentos. Posso dizer que amadureci. Costumo dizer que às vezes nem lembro quem eu era antes de Caio chegar. Tenho vagas recordações de uma menina muito mimada e intempestiva. Que teve que dar lugar a uma mulher responsável por si e pelo reflexo de suas escolhas em outra vida, solidária porque também viria a receber muita solidariedade, humilde porque alcançou a consciência de sua mera condição de aprendiz nesta vida.

Caio me apresentou gente que nunca imaginei conhecer. Me motivou a fazer ações entre amigos e exercer liderança em alguns momentos. Me fez encontrar a espiritualidade e desenvolver minha intuição, para meu imenso fortalecimento. Me fez deixar os mimimis de lado e partir para a ação. Me faz ir em busca de sonhos antigos ou teoricamente impossíveis. Me faz ter fé na humanidade. Me ensina os valores de verdadeira justiça e amor incondicional ao próximo. Me reitera constantemente o conceito de coragem. Me faz amar a vida em sua simplicidade. Me permitiu me redescobrir. Me fez florescer.

Nada disso veio da noite para o dia. A semente teve que ser cuidada, entendida, regada, amada. Para que frutificassem na vida que temos hoje. Na mãe que conseguiu retomar a vida profissional 7 anos depois de largar tudo por este filho que exigia tantos cuidados, que reaprendeu a se amar e se cuidar para ainda melhor poder amar e cuidar esse filho tão maravilhoso que lhe foi destinado. No irmão que era criança e hoje é quase um homem, com valores de inclusão e igualdade impressos naturalmente em seu caráter. Em tantas pessoas que aprenderam alguma pequena coisinha com Caio, em alguma oportunidade que tiveram de se aproximar dele com o coração aberto – sempre lembro do querido exemplo da tia Dina... Que frutificou especialmente nele mesmo, Caio. O menino que não viveria um ano e hoje já passa dos 10. Que seria vegetativo e hoje freqüenta o terceiro ano de uma escola regular de ensino fundamental. Que segue evoluindo física e cognitivamente, florescendo a seu tempo.

Me sinto despedindo-me dos Meus Frutos. Gradualmente. Aceito cada vez mais nossa rotina com naturalidade e não existe mais a necessidade inicial de compartilhar tudo o que fazemos. Aceito a deficiência de meu filho como apenas uma pequena faceta do ser humano gigante que ele é. Estou ciente que nada parou. Que haverão novos desafios, novas provas, novos aprendizados. Mas, como sempre tentei escrever por aqui – para quem a vida não é assim? Eu, Caio, Yuri, somos iguais. Apenas mais uma família. Apenas três entre bilhões de pessoas no mundo. Não há mérito nem deferência em nosso caminho. Apenas há a estrada trilhada a nosso particular modo.

A nossa história? Não preciso mais me apoiar no que já foi. Cultivamos fé, amor e aprendizados, ao longo de 10 anos. Acho que um ciclo se encerra. Está na hora de colher os Frutos. E caminhar para frente, saboreando o que nos tornamos.