quinta-feira, 6 de março de 2008

A insanidade de todos nós

Ontem à noite, saí com minha família para um jantarzinho. Quando íamos embora, parou na frente do restaurante, um "louco". Dessas pessoas mal-vestidas, que falam com seres invisíveis ou não, fazendo gestos teatrais.
Inicialmente, num momento de auto-preservação, senti medo. Depois, fiquei chateada.
As pessoas riam, apontavam para ele.
Ele saiu andando pela rua, parava em algumas portas, gesticulava, discursava. E mais pessoas riam.
Riam do quê, pensei?
A insanidade é engraçada? Ser "normal" é ser superior?
Me entristeço ao ver o preconceito tão abrangente de nossa sociedade. Basta sermos diferentes de uma minoria para nos sentirmos superiores.
Ninguém se pergunta o que fez aquele homem se desequilibrar. Um acidente, uma doença, um trauma emocional muito forte. As pessoas se ocupam em rir apenas.
Não se preocupam em olhar para seus próprios umbigos, em busca de suas imperfeições a fim de melhorá-las.
Ser egoísta, preconceituoso, isso sim é insano.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Parto anônimo - Um respaldo à irresponsabilidade

É estupefata que vejo a possibilidade de uma nova lei brasileira: o parto anônimo. Segundo o anteprojeto, a lei dará às gestantes a possibilidade de fazer todo o acompanhamento de pré-natal e o parto sem a necessidade de se identificar na maternidade e, inclusive, de ficar com o bebê. Com a proposta, a mãe fica livre de toda responsabilidade jurídica sobre a criança, que poderá ser deixada em hospitais ou postos de saúde para a adoção. É a versão moderna da “roda dos excluídos”, dizem uns. Pra mim, retrocesso puro. E abandono. Simples e cruel assim.

Os argumentos dos defensores deste projeto de lei é que assim diminuiriam os casos de crianças jogadas em latas de lixo e em lagoas e a vida seria preservada, uma vez que não seriam realizados abortos. Amparadas pela lei, as “mães” (dá pra chamá-las assim?) poderiam se desfazer de filhos indesejados sem maiores implicações. E os índices de adoção cresceriam.

É simplesmente absurdo e não dará certo.

Primeiro, porque mascara um problema social muito maior que é a falta de planejamento familiar. Admito que sou dona de um ponto de vista no mínimo controverso, pois acredito que a camada mais baixa da população muitas vezes engravida mais pela preguiça de buscar contraceptivos gratuitos ou pela eventual “vantagem” financeira e governamental que mais um filho pode acarretar. Mas ainda acho que o controle da natalidade é a chave que abre as portas para um país entrar na esfera do real desenvolvimento. É preciso investir fortemente em educação sexual, esclarecimento e livre acesso à contracepção. Enquanto filhos continuarem sendo gerados com irresponsabilidade e despreocupação, sorry em lhes dizer, nosso Brasil continuará sendo parte do terceiro mundo.

Em segundo, sou absolutamente favorável à legalização do aborto. Embora em pequena escala, “acidentes” acontecem. E a mulher, de qualquer camada social, deve ter o direito à escolha. Eu sou um exemplo disto. Engravidei do meu segundo filho sem planejar, num momento financeiro terrível. Pensei durante 15 dias se iria abortar ou não. Mas era tarde: eu já estava completamente apaixonada por aquele ser que crescia em mim. Ter meu segundo filho se tornou um desejo, uma opção. Eu não abortaria, hoje estou certa disto. Mas não me dou o direito de condenar quem o faça. Prefiro um aborto feito em condições básicas de higiene e segurança do que um recém-nascido morto após ser atirado, num ribeirão poluído, pela janela
. E também acho injusto com a própria criança que ela seja alvo de agulhas de tricô ou de comprimidos clandestinos de Cytotec. Sem falar no ônus que gera para a saúde pública tratar as seqüelas destas tentativas de aborto, muitas vezes mal sucedidas e que acabam comprometendo a saúde do futuro bebê.

Por fim, para aumentar os índices de adoção, o remédio é bem mais simples. Basta descomplicar. Milhares de homens e mulheres, em plenas condições sociais e emocionais, esperam um filho do coração. Já amam uma criança em suas vidas e, ao contrário do que se alardeia por aí, não esperam que ela seja branca e recém-nascida. Eu conheço pelo menos três casais de amigos nesta situação. E meu círculo de amizades nem é tão grande assim.

O que acho que este projeto de lei, se aprovado, vai fazer é superlotar as maternidades, os conselhos tutelares e os orfanatos. Vamos criar um problema ainda maior, uma vez que não temos estrutura para abrigar estas crianças enquanto a burocracia pela adoção acontece – e elas crescem. E pior: acho que a nova lei pode criar um precedente mais absurdo ainda. Se chego à conclusão de que não tenho condições de criar meu filho de 7 anos, também posso entregá-lo livremente para adoção?

Filho não se dá. A eles, nos doamos. Amamos, respeitamos, ensinamos valores, no intuito de realmente estar formando os cidadãos do amanhã. Para que nas gerações futuras um assunto deste porte não seja nem cogitado.

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Poder da Mente

Uma pessoa na qual tenho a maior credibilidade me reforçou semana passada de que estou certa. O Caio vai andar, vai falar. Vai se desenvolver tão bem que quem o conhecer daqui alguns anos não acreditará nas dificuldades vencidas por este pequeno grande.
Confesso que fico receosa. Não com as previsões em si, mas na minha expectativa de que a melhora seja assim tão significativa. Sempre acreditei no potencial do meu filho mas tenho medo de pedir dele mais do que ele pode me dar. Ao mesmo tempo tenho em meu coração a quase certeza de que sim, ele pode, ele quer, ele vai.

Em setembro último, reencontrei no Hospital de Clínicas, a Ana Luíza*, “colega” de UTI Neo do Caio. Ela nasceu prematura, com 26 semanas de gestação. Teve cegueira da prematuridade, hemorragia cerebral, precisou fazer reconstrução do intestino. Ficou internada 104 dias (quase o dobro do meu guerreiro). Depois, voltou e fez duas cirurgias: uma pra colocar a DVP (exatamente como o Caio) e outra para abrir seu crânio que estava fechando prematuramente (a tal cranioestenose que chegaram a suspeitar que o Caio tivesse). Os prognósticos dados à menina (atendida pelo mesmo neurocirurgião “sensível” que comparou o Caio à uma alface)? Vegetativa, para sempre. Lembro muito do quanto eu e a mãe da Ana Luíza chorávamos no ombro uma da outra, do quanto conversávamos com Deus, do quanto defendíamos o amor materno como instrumento de cura. Pois tive a felicidade de ver a Aninha (2 anos e 8 meses) caminhando e chamando sua mãe de “mã-mã”. A surdez, antes diagnosticada, foi revertida pelo amadurecimento cerebral da menina. A mãe dela me conta que tudo foi assim, de um dia pro outro, os neurônios acharam o caminho, as conexões se fizeram corretas e lá está Aninha se negando a ser carregada no colo.

Neste final de semana fiquei sabendo de mais uma grande vitória. William* é colega de fisioterapia do Caio. Teve uma anóxia profunda ao nascimento. Iniciou a fisio logo após a alta hospitalar, aos 4 meses de vida. Somados ainda à sua agenda, a fono, a hidro, a equoterapia. Conheci-o com 3 anos. Numa cadeira de rodas adaptada, muito pouco sustentava o próprio pescoço e não falava. Muito sacrifício, muita dor, me relatava a mãe. Pouco antes do Natal, encontrei-o com sua mãe na rua e ele apontava e falava alegremente: “Caminhão! Vrrruuuum!”. Pois sexta, fiquei sabendo que William, aos 5 anos, começou a caminhar! Ainda precisa que sua mãe o guie, segurando suas mãos. Mas já venceu, está de pé!

Eu posso visualizar inúmeras vezes ao dia, meu Caíto correndo, contando suas coisas, cantarolando. Não é utopia, é um sentimento que insiste em preencher meu peito.
Não desprezo o poder e os avanços da ciência. Estou consciente que os progressos do Caio devem ser compartilhados com os tratamentos, acompanhamentos e medicações. Mas não é mérito exclusivo deles.

Ana Luíza e William têm mães amorosas, persistentes. Que não desistiram ao primeiro “impossível” que ouviram de médicos experientes. Carregaram seus filhos nos braços e uma fé quase inabalável nos corações. Quero ser como elas, luto pra isto.

Respeito opiniões diversas com a maior humildade, mas meu tempo vivido com o Caio me fez aprender ou ter a certeza sobre algumas coisas. Sei que nossa mente tem o poder de transformar situações. Querer, e acreditar que é possível, é sim 50% do caminho para as realizações. A fé num Deus, numa força, numa energia pode transmutar nossos destinos. O amor incondicional é poderoso, talvez o mais poderoso de todos os sentimentos.

Caio é um guerreiro. É um vencedor. E ainda hei de vê-lo imponente, de pé, sorridente como ele só, ratificando minhas crenças.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das crianças.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Eles

Se tem uma coisa que me alegra, me orgulha e me emociona é a sintonia de meus filhos, como irmãos. São parceiros, se amam, se entrosam. Não é preciso mais nada!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A torta da Zazá

Que o Caio ama o Cocoricó, seus clipes musicais e personagens, quase todo mundo sabe.
O que a gente não sabia (ou no meu caso, tinha medo de não ser) é que ele ama porque entende todo o programa.
Ele tem os DVDs de Clipes 1 e 2, que rolam diariamente lá em casa, vai pra praia, etc... febre mesmo!
E esta semana ele ganhou um DVD com episódios da turma do sítio do Júlio.
Eu achei que ele não ia dedicar a mesma atenção, uma vez que é muito mais diálogo do que música e sempre tenho dúvidas do quanto o pequeno déficit visual dele pode atrapalhar sua interação com a TV. Para minha total surpresa e alegria, ele amou as histórinhas. Pude perceber que ele conhece os personagens, suas vozes e tudo o mais. E parecia acompanhar com o olhar atento todo os episódios.
O DVD rodou duas vezes. Na terceira vez, ele já reconhecia suas partes favoritas. Quando iniciava o diálogo, ele já começava a rir... E imitou o cavalo Alípio cheirando a torta da Zazá no forno, franzindo o nariz e tudo! E ria muito e gritava junto com a Zazá o seu "aaaahhhhh", pela torta que queimou!
Ficamos muito felizes. Pelo generoso presente. Por ele ter curtido tanto. Por percebermos o quanto ele entende e interage. São as pequenas grandiosas vitórias de nosso menino!
Nos Dias Quentes do Verão, a torta da Zazá queimou. Mas para nós teve um sabor delicioso...

Irmão amoroso

O Yuri, todos sabem, é um irmão maravilhoso pro Caio.
Tá sempre brincando, estimulando o irmão. É cuidadoso, manda beijos, faz muito carinho. Canta, lê, dá mamadeira e até faz dormir.
Ontem à noite, saímos eu, ele e o Caio de ônibus - íamos encontrar o Sandro mais adiante.
Ele me pede pra segurar o Caio no colo e eu permito porque isso deixa os dois muito felizes.
Uma senhora, no banco ao lado nos pergunta:
" - Ele tem paralisia cerebral?"
O Yuri corre na minha frente e responde:
" - Tem sim. A senhora não acha que ele é lindo?"
Ela sorri um pouco desconcertada, mas parece ainda insistir em nos desconcertar:
" - Sim, é muito bonito. Ele não caminha?"
E seu Yuri de novo:
" - Não, mas só por enquanto. Mas ele manda beijo, canta do jeito dele e é um irmão maravilhoso".
A senhora não fez mais perguntas.
O Yuri se vira pra mim:
" - Viu mãe, como eu cuido bem do Caio, defendo ele, amo ele? Eu não tenho vergonha das dificuldades do meu irmão. Tenho orgulho dele. E acho que ele me ama também".

Como diz uma amiga minha, às vezes acho que o Yuri é uma sábia alma velha num corpo de criança.

Yuri, meu amor, Caio e eu te amamos muito sim e também temos muito orgulho de ti!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Volta às aulas

A alegria do meu Yuri ontem, ao recomeçar as aulas, era contagiante.
A empolgação com o material novo, os novos cadernos de heróis. A expectativa do reencontro com os amigos, conhecer a nova professora, acenar para a anterior, orgulhoso da nova etapa a ser vivida. Ele me contou do "friozinho na barriga" com as coisas novas que vai aprender e se ele vai mesmo conseguir aprender (não tenho a menor dúvida, meu anjo!).
Me emociono e me orgulho, como sempre, ao ver cada novo passo de meu filho. Seu crescimento, sua ânsia em desbravar novos caminhos, seu coraçãozinho sempre empolgado com a vida que a cada dia se abre mais e mais para ele.
Segunda série, terceiro ano. Estou certa de que estás pronto, meu filho. Sei que vais dar show e dar mais motivos ainda pra mãe bobona aqui verter muitas lágrimas.
Quando liguei pra casa ontem, no final do dia, mal te continhas pra me contar as novidades do teu primeiro dia.
Hoje vais novamente arrumar a mochila, colocar o uniforme, pentear o cabelo para o lado e abusar do perfume (aluno charmoso é outro papo). E tua escola e a vida por si só seguirão te recebendo de braços abertos. Vai e arrasa. Fica com Deus. Te amo!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Pra quem tava com saudades nossas

Seguem umas fotinhas tiradas por minha prima e comadre Gabi, dinda do Yuri.
Reparem no bronze, na boa forma e nos cabelos dourados do meu primogênito e no sorriso sempre contagiante do meu Caíto (o espichado que não engorda nunca). Créditos à madrinha então, que tbém aparece aí. Se Deus quiser, agora em março teremos máquina digital outra vez.






quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Milhões unidos no besteirol

Eu prometi pra mim mesma que não ia me manifestar sobre o Big Brother Brasil. Porque em suas oitava edição, o reality show conquistou adeptos que, a meu ver, elevam o programa à categoria futebol-política-religião. É melhor não se discutir a respeito. Mas o que vi ontem não consigo deixar passar.
Estava eu zapeando entre os canais de TV quando, ao passar pela Globo, assisti Pedro Bial dizendo: "estamos chegando aos 25 milhões de votos". Na hora, passei adiante até encontrar uma programação do meu agrado. Mas depois parei pra pensar. Como assim 25 milhões de votos?
Tanto se fala que o povo brasileiro é acomodado, não se mobiliza, não luta, não é solidário... Acho que estão todos errados. Afinal, pelo menos 25 milhões de atenções foram dispensadas. Para quem? Ao eliminado da semana!
Ah, isso sim é importante!
Ainda esta semana, final do dia, eu voltando pra casa, num trajeto de ônibus que dura aproximadamente 45 minutos. Atrás de mim, uma jovem e um senhor conversavam animadamente. Por pelo menos 30 minutos o assunto foi o BBB, as intrigas, os namoros, os participantes favoritos. Lá pelas tantas, o senhor muda radicalmente o rumo da conversa. "E as aulas da tua menina já recomeçaram?". "Não, ia ser dia 11 de fevereiro, depois dia 20... agora parece que vai começar só em março". "Ah é? O que aconteceu?". "Ah, nem sei direito."
?????!!!!! Como assim? A moça sabe tudo sobre o anjo, o líder, a votação pro paredão e não sabe por que as aulas da filha estão sendo adiadas? Isso, meus senhores e senhoras, é a famosa alienação.
Não condeno quem encontre no programa momentos de lazer, todos precisamos de uma pitada de cultura inútil vez ou outra. Não assisto Big Brother, mas também perco meu tempo com bobices televisivas. Cada um com seu gosto.
O que não aceito são 25 milhões de pessoas gastanto seus telefones e pagando impostos por uma bobagem tão grande. Ou parando no meio do trabalho pra votar no eliminado. Não vejo estes esforços para derrubar taxas abusivas. Não percebo tamanha movimentação para barrar leis esdrúxulas no Congresso. Se 25 milhões de eleitores levassem seu voto tão a sério quanto num paredão do BBB, poderíamos ser poupados da presença de Clodovil Hernandéz em Brasília, por exemplo.
Mas este, não é um problema do Brasil. É de cada um de nós e de nossas escolhas.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Um carma, por amor

Foi com o coração carregado de emoção, ternura e uma sensação de plenitude que terminei de ler o livro "O Amor me trouxe de volta", que ganhei no final do ano. E queria compartilhar um pouco do que li e (acho que) aprendi.
Muito se fala em carma (ou karma, como preferirem). Mas constantemente é um termo associado a coisas ruins, sendo um comparativo sinônimo de fardo. Só que na verdade, não é assim que o carma deve ser sentido. Ele é tão somente a nossa missão, o nosso propósito para esta encarnação. E está diretamente relacionado à ligação de nossas almas com outras almas. O pagamento ou resgate de questões pendentes não precisam vir necessariamente pelo sofrimento ou na mesma moeda. Podemos pagar um mal feito recebendo amor.
E ter esta consciência é maravilhoso!
Devo admitir que minha leitura se iniciou tendenciosa porque tenho alguns indícios somados à minha crença pessoal de que o Caio é uma alma que decidiu voltar pra mim. E já influenciada por estes sentimentos, encontrei pontos ainda mais fortes de identificação no livro que me fizeram reforçar minha opinião. E isso não tem nenhuma relação com as deficiências dele, mas somente à história de um amor e uma ligação muito fortes que se mantém para todo o sempre.
Pude, sob esta ótica, entender muitas coisas. Tive alguns questionamentos respondidos.
Mais do que nunca estou certa de que fui escolhida por meu filho. E pude entender perfeitamente que não fui escolhida para ter um menino com paralisia cerebral para pagar por algo. Fui escolhida por ele pelo amor que ele me tem desde outra vida. Talvez ele esteja pagando um preço por essa escolha, por antecipar este reencontro. E se foi assim mesmo, ele decidiu pagar por me amar demais. Decidiu pagar para estar ao meu lado.
Amor. Amor. Amor. Sempre falo dele, quando falo em meus filhos, mas especialmente do Caio, da minha esperança no seu desenvolvimento, do meu apoio incondicional.
Agorinha ainda teve o post Terapia do Amor.
Porque é tão somente com amor que posso cercar aquele que tanto quis estar comigo.
Sei que o amor cura. Sei que ele pode tudo. Sei que meu Caio é um carma, e sim, eu o mereço muito. Mereço seu amor. E ele merece todo o meu também.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ao infinito e além

Caíto consultou com a Dra. Fabi, hoje, sua neurologista.
Apesar de às vezes achar este acompanhamento mensal um tanto desnecessário e cansativo, cada consulta acaba sendo uma injeção de ânimo pra mim.
Ela reforçou que, como eu já tinha observado, o Caio está com as mãos bem mais coordenadinhas e sem se contrair. Sua visão também apresentou sensível melhora. E a Fabi me reforça o quanto o Caio é maravilhoso, desenvolvendo-se mês a mês. Na grande maioria dos casos de PC, ou a criança fica com seu desenvolvimento estagnado ou alterna períodos de grande melhora com a estagnação. No caso dele, todo mês é um detalhe que mudou, uma função que ele aprendeu, um músculo que começou a trabalhar. Isso nos mostra que o cérebro dele está em constante exercício e aprendizado, o que só reitera que nossas expectativas de dias melhores não são nada infundadas.
Meu pequeno valente, o herói dos meus dias, não conhece limitações. A exemplo de Buzz Lightyear ele sabe que pode conquistar o infinito e além. E eu viajo junto na sua coragem e ousadia. Porque o céu pode ser o limite, mas nossa esperança é ilimitada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A terapia do amor*

Um dia desses conversava pelo MSN com uma amiga pra lá de especial. E comentei com ela o quanto me sinto diminuída às vezes, ao confrontar minha realidade com a de outras mães de crianças com PC. O tratamento do Caio é restrito meramente à fisioterapia motora (ele fazia fisioterapia respiratória também, mas teve alta clínica), ao uso da medicação anticonvulsivante e a exercícios de estimulação em nível global – envolvendo postura, coordenação motora, audição, visão e fonoaudiologia – propostos pela pediatra, neurologista e fisioterapeuta dele. Ou seja, elas nos ensinam alguns exercícios ou brincadeiras pra fazer em casa e nós nos esforçamos para repetir. Mas é tudo feito de um modo bem empírico, quase instintivo.

Comentei com minha amiga que me dói e me culpo por não ter recursos para oferecer a ele mais terapias, como a fono, hidro e equoterapia. Algumas amigas minhas ainda fazem acupuntura, sessões de reiki e inúmeras outras terapias auxiliares com seus filhos. Penso que o Caio está tendo (lembro sempre, APESAR da minha eterna ansiedade) um ótimo desenvolvimento em relação a tudo o que seu pequeno cérebro já sofreu – anóxia, meningite, hidrocefalia. Lembro que transformamos um cérebro 80% lesionado num cérebro com 95% da área preenchida por neurônios sadios e perfeitos, prontos a aprender. E me questiono se o resultado não poderia ser uma melhora ainda maior, com respostas ainda mais efetivas do meu pequeno, se tivéssemos acesso a outros tipos de tratamento. Mas esta minha doce amiga me reconforta ao lembrar que nossa família disponibiliza ao Caio, com grande riqueza, uma terapia fabulosa: a do amor incondicional.

E aí sempre relembro de quando o prognóstico era absolutamente sombrio. Quando não havia futuro a se esperar. E quando meu amor gritou: eu não aceito! Ainda que soe arrogante da minha parte sempre tive consciência que meu amor resgatou meu Caio mais de uma vez, para compartilhar comigo esta encarnação. Então tento absorver as palavras da minha querida e realmente acreditar que os progressos alcançados por meu filho, a grande maioria deles considerada impossível por muitos médicos, se deve sim à terapia do amor, que lhe ofertamos todos os dias, de maneira intensa e completa.


Sob essa ótica, é com grande alegria que vejo suas mãozinhas cada vez menos contraídas, pouco a pouco mais coordenadas para pegar e manter seguro o objeto de desejo. É cheia de esperança que percebo seu olhar cada vez mais direcionado às pessoas, aos desenhos, à vida. E aplaudo incessantemente cada vontade dele de sentar, levantar. E me soa como maviosa sinfonia cada sílaba, cada risada sonora. Meu filho vive e é feliz, abençoado seja!

Em nome deste amor, quero mais. Estamos lutando arduamente para que o Caio tenha direito a todos os tratamentos possíveis. Para que meu filho siga florescendo lindamente para a vida, sempre regado pelo amor, este agente transformador de tudo.

A quem passar por aqui peço uma prece, uma vibração positiva, um pensamento carinhoso. Para que a caminhada siga firme rumo a seu propósito. Assim seja!

* Para minha querida Dê.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A bicicleta do Yuri

O Yuri desde sempre teve paixão por bicicletas. A última que ele teve foi em 2006, daquelas pequenas (acho que aro 14) com rodinhas auxiliares para se equilibrar. Numa de nossas primeiras tentativas de usá-la sem as tais rodinhas, ele voou para o chão e teve um ferimento bem feio no rosto. Foi o que bastou para que ele trocasse a bici pelo roller e pelo patinete. Ele só voltou a pegar a bicicleta no final de novembro de 2007, ele já bem maior que ela, se sentia pronto a se aventurar de novo. Posso dizer que numa de minhas intuições maternas, escolhi naquele momento seu presente de Natal: uma bici nova, maior.

Compramos uma bicicleta bem bacana, aro 20, com marcha e de aço cromado, colorida com azul e branco como meu gremista tanto gosta. A minha surpresa foi que ele amou, pegou a dita cuja e saiu pedalando por aí. O espanto: a tal bici "grande" não tem rodinhas auxiliares! Por onde meu filho aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas que não vi?

A bicicleta passou a ser um símbolo dúbio para mim. Símbolo do crescimento do meu filho, que tanto me orgulha. Símbolo dele desbravando caminhos da longa e feliz vida que ele há de ter. Mas é, ao mesmo tempo, símbolo do meu receio: por onde tenho andado enquanto meu filho cresce?

Na praia, no final do ano passado, ele já me alertava: "Em 2008 vou fazer 8 anos". Como assim? Para mim foi ontem que esse lindo bebê chegou! Vejo assustada a barrinha no topo do blog: 7 anos, 8 meses, 1 semana e 5 dias... O tempo anda correndo e tenho medo se ele me será favorável. Desse jeito, quando eu abrir os olhos novamente terei um pré-adolescente em casa. Depois um rapaz e mais tarde um homem, que sairá de casa para conquistar seu próprio território.

Será que estou aproveitando tudo o que posso dessa infância que já me parece demasiada curta? Será que estou deixando meu amor e minha verdade impressos em cada momento, para que eles sustentem com respeito nossa relação, independente do passar dos anos? Torço para que nossas brincadeiras, viagens, canções, leituras e, até mesmo, nossas brigas, fiquem guardadas num cantinho de recordações especiais. Desejo imensamente que meu filho sempre possa afirmar seguramente: Sou feliz! Sou amado! Rezo para que ele me guarde no porta-jóias do seu coração. Ao lado de sua boa companheira, a bicicleta.


Ainda ontem ele tinha este tamanhinho...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

5 coisas para 2008

Minha doce amiga Marlene me convocou para mais um Meme. Como ainda estamos no clima de Ano Novo e metas para o ano e, principalmente porque tenho essas metas, adorei. Olhem como funciona:

"Fazer uma lista com cinco objetivos pessoais pro ano de 2008.
Só que esse meme precisa ser verificado no início do ano que vem...
então precisam ser coisas palpáveis, verificáveis e coisas que dependam do seu esforço pessoal.
Coisas abstratas estão fora: tipo: ser feliz, ser mais paciente... é muito lindo,
mas não dá pra verificar corretamente se foi cumprido."

Os meus 5 objetivos para 2008 são:

1. Emagrecer 15 kg (ok, eu precisaria perder bem mais, mas se ficar numa média de pouco mais de 1kg a menos por mês já é um bom começo);
2. Iniciar uma poupança (e quem me conhece sabe o quanto isto é difícil);
3. Ir pra São Paulo, passar nem que sejam apenas 48hs com algumas das melhores amigas do mundo!; 4. Comprar minha casa (mas se eu não conseguir comprá-la, comprar um terreno);
5. Iniciar fonoterapia e hidroterapia - pelo menos - com o Caio.

Agora teria que repassar essa tarefa para mais cinco amigas, mas deixo livre pra quem estiver a fim.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O melhor filho do mundo

Tenho um amigo que diz que todas as mães têm a mania de achar o seu filho mais bonito e mais inteligente que todas as crianças do mundo. Como ele ainda não tem filhos, de nada adiantou eu lhe falar sobre o amor totalmente tendencioso de pais e mães. Mas deixa pra lá.

Eu considero o Yuri muito inteligente. Não é um "gênio-super-dotado", mas tem uma certa precocidade em relação às crianças de sua idade. E esta minha opinião já foi reforçada por pediatras e professoras. Ele tem uma incrível capacidade de assimilar, relacionar e interpretar os fatos que acho fantástica.

Desde metade do ano passado, numa época em que não havia nenhum DVD novo em sua coleção, o Yuri resolveu fuçar nos meus. E descobriu Forrest Gump, o Contador de Histórias. Um belo dia, chego em casa, tá lá o guri super atento assistindo ao filme que tem mais 2 horas de duração e várias sutilezas sobre a história americana. Ao término do filme pediu para ver mais uma vez. E semana passada, quando voltamos da praia, ele assistiu o vídeo duas vezes no sábado e duas vezes no domingo. Lá pelas tantas não resisti e perguntei: "Mas o que este filme tem de tão especial? Por que tu não cansas de vê-lo?".

Estão prontas para a resposta?

"Mãe, esse é o melhor filme de todos os tempos. Eu gosto muito de ver, porque toda vez que eu olho de novo eu percebo mais coisas. O Forrest sofria muito preconceito, desde que ele era criança. As pessoas achavam que ele não era inteligente, mas ele era, só não igual aos outros. As pessoas tinham medo de ser 'amigo' dele. Mas quem prestou atenção nele de verdade aprendeu a amar ele. E ele foi feliz. ACHO QUE COM NOSSO CAIO TAMBÉM É ASSIM".

Preciso dizer que não sabia se chorava ou desmaiava?

Uma vez, minha amada amiga Márcia POA, me disse (respondendo ao meu medo que o Caio tivesse uma inteligência limitada) que o importante é o uso que ele fará da inteligência que tiver.

No brilhante boletim do meu Yuri, com notas que lhe renderam média anual 9,7 na primeira série, o que mais me encheu de orgulho foi o parecer descritivo: "É um menino sensível, afetuoso e solidário, sempre pronto a colaborar com professores e colegas". Fico imensamente feliz que meu primogênito seja inteligente. Mas fico ainda mais realizada ao perceber que ele tem um grande coração, que certamente conduzirá esta inteligência de modo a torná-lo um homem de bem.

E deixem eu reforçar para o meu amigo: sim, meu filho é dos mais inteligentes. E, ao lado do mano Caio, é o melhor filho do mundo!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ainda bem que terminou

Sabe aqueles dias em que dá vontade de gritar?
"Pára o mundo, que eu quero descer!"
Pois é, hoje foi um deles.
Ainda bem que está chegando ao fim muito melhor do que começou.
Ele é Pai, não é padrasto.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Uma esperança que nunca morre

Passei o final de ano depressiva, como acontece com muitas pessoas nesta época. Eu, que sempre gostei de festas e que sempre fui do time dos que renovam a esperança no novo ano que está para nascer. Dessa vez eu estava cansada, quase esgotada.

Em meio à troca de presentes de Natal, de uma certa satisfação de estar com as finanças mais equilibradas e poder comprar uns presentes bacaninhas pras crianças e pro marido, fiquei triste. O que mais desejo nesta vida não pode ser comprado. Não está à venda, não pode ser financiado. Receberei um dia se Ele achar que somos merecedores. E aí quis cair em descrédito - comigo e com Ele mesmo.

Depois, às vésperas do dia 31 me vi mais uma vez transferindo para o Ano Novo a esperança de grandes melhoras. Pela segunda vez torço para que este que se inicia seja sim o ano em que o Caio vai ficar mais firme, vai andar, vai falar, vai ser mais feliz. Mas não encontrava forças para acreditar nos meus desejos. E desacreditar ou talvez ter que confrontar uma realidade que insiste em se mostrar distante (ou incerta, o que é pior ainda) do que sempre almejei pra nós é doloroso demais.

Mas o bom disto tudo é que minha esperança é prima-irmã da mitológica Fênix. Às vezes tá aos caquinhos, tão moída pelas dificuldades do dia-a-dia que parece impossível recompô-la. E aí surge uma microscópica fagulha e pronto! A fogueira está acesa de novo, aquecendo meu coração.

Hoje o Caio consultou com o otorrino, na revisão trimestral de rotina. E o Dr. Eduardo se "despediu" da gente. Disse que com 8 meses sem nenhuma crise de otite, suportando praia e piscina numa boa e com o tônus muscular cada vez segurando melhor o pescoço, o Caio teve alta clínica. Pode vir a ter alguma crise de otite, mas considerando as origens delas e as melhoras dele, é muito improvável.

Faço as pazes com Deus. Choro e agradeço. Peço perdão por minha impaciência. Volto a aceitar com amor esta missão gratificante de ter o Caio em minha vida.

Pode ser que ainda não seja em 2008 os tãos sonhados passos do meu filho. Mas ele já venceu muito e segue vencendo. É um vencedor desde que nasceu. E assim será sempre. Vou vê-lo andar, vou escutar suas frases, vou amá-lo cada dia mais. E principalmente vou seguir recebendo lições infinitas sobre tudo, com meu pequeno guerreiro.

Tenho medos, sim. Mas a esperança, esta teimosa que vive em meu peito, não morre nunquinha.
Ainda bem.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O que tenho de mais valioso




O lucro

Apesar da tristeza e da revolta pelo recente acontecido, vamos às boas notícias: em meio a todo o pavor do assalto, o Sandro ainda conseguiu negociar com os ladrões pra deixarem o chip da máquina digital e assim mantivemos as fotos das crianças que tiramos nos primeiros 5 dias. Então, uma amostra do que ficou de nossas férias e da família linda que somos - e isso ninguém nos tira!


O mar logo ali nos esperando

Muito verde ao redor pra gente passear
Caíto sempre alegre
Manos lindos pegando um bronze

Praia e joguinho de cartas: tudo a ver - e Caio participou firme e forte

Fifão relaxando na rede
Hora do banho é folia na certa!

Papai Noel trouxe o DVD do Cocoricó Clipes 2 - preciso dizer que Caíto amou?

Dois dos três homens que mais amo na vida

Caíto curtindo desenho no "falecido" bebê conforto (e querendo saltar fora dele!)

Até com chuva dava pra curtir


segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Perdi a virgindade

Foi numa madrugada, nos ultimos dias de 2007. Eu, brasileira, 35 anos, casada, dois filhos, deixei de ser virgem: fui assaltada. Eu, que me incluía numa minoria que jamais tinha passado por esta violência. Três marginais mascarados invadiram nossa casa na praia. Durante três intermináveis horas nos apavoraram sob a mira de revólveres, ironizando nossa melhor condição financeira, que eles eram pobres coitados que precisavam roubar e que nós éramos riquinhos em férias.

Roubaram-nos tudo: roupas, dinheiro, jóias - minha aliança de casamento, a corrente de ouro com meus dois meninos em pigente, um relógio recém ganho do marido de Natal - celulares, máquina digital (adeus fotinhos constantes aqui no blog). Roubaram inclusive o perfuminho do Yuri, um repelente manipulado do Caio. Levaram shampoos, bebidas, bombons das crianças, TV, DVD, microondas e até o carro da minha cunhada. Mas roubaram algo muito mais valioso: nossa dignidade, nossa tranqüilidade. E isto não se recupera assim tão fácil.
As crianças, sob a proteção de seus anjos da guarda, não acordaram e os bandidos não mexeram com elas.
Olharam o bebê conforto do Caio, que usamos como cadeira pra ele assistir TV ou apenas ficar sentadinho. Pedi pra não levaremm que o menino precisava muito dele. Ao que um dos ladrões debochou: "deficiente sou eu dona, que não tiro férias". Que nojo!
Meu marido, que é cardíaco, perdeu a consciência. E eu pensei que o tinha perdido. Foi pelo estado dele que os ladrões resolveram ir embora, não sem antes nos amarrar.

E é assim que me sinto desde aquela madrugada: amarrada, impotente, invadida.

Mas sabem o que mais me deixa com raiva? O fato de precisar agradecer à Deus porque estamos vivos, que ninguém se machucou. Concordo, estamos bem, unidos, prontos pra batalhar pra conquistar tudo outra vez. Mas vai demorar, afinal a vida não é fácil assim não. E não aceito que entrem desse modo em nossas vidas, que nos humilhem, que nos tomem o que lutamos para ter. Não aceito que apontem uma arma para minha cabeça e me encham de medo. Acima de tudo, não aceito que seja assim mesmo e que agora eu faça parte de uma grande estatística nacional.

Não sou mais virgem. E devo dizer que doeu e ainda dói muito. Não sou mais uma adolescente sonhando em viver um romance cheio de emoções. Sou uma brasileira acuada, descrente na justiça dos homens, cheia de revolta e indignação. E sofro mais ainda ao me perguntar: quantos mais ainda? Até quando?